Argentina: um título cheio de superstições

argentina(Messi e companhia conseguiram fazer da Argentina Tri-Campeã Mundial.)

O terceiro título Mundial conquistado pela Argentina fica marcado pela concretização de várias superstições, que dão razão aos mais crentes neste tipo de assuntos e, muito provavelmente, não mexem nada com aqueles que são mais céticos sobre este tema.
As coincidências, chamemos-lhe assim, estão todas elas relacionadas com o Campeonato do Mundo de 1986, o último ganho pela Seleção “Albiceleste” até este domingo e que significou posteriormente um “jejum” de 36 anos, e envolvem várias personalidades e Países, incluindo… Portugal.
Começando, naturalmente, pelos “sinais” vindos do próprio País, houve quem se “agarrasse” a uma entrevista que Maradona deu em 2004 ao canal de televisão argentino TyC, na qual é possível vermos a legenda “nosso presente de fim de ano” e, ao fundo da imagem, o número 18, dia da final do torneio do Qatar.
Depois, a última vez que um futebolista nascido na província de Córdoba tinha vestido a camisola 9 da Argentina foi precisamente em 1986, autoria de José Luis Cuciuffo; e no Mundial deste ano, o número 9 ficou entregue a Julián Álvarez, que nasceu em Calchín, província de Córdoba. Ainda sobre Córdoba, o Belgrano, clube dessa cidade, sagrou-se Campeão da II Divisão há uns meses, e antes só por uma vez o tinha conseguido: 1986.
A final do Campeonato do Mundo do México, que opôs os argentinos à Alemanha Ocidental, foi arbitrada pelo brasileiro Romualdo Arppi Filho, nascido a 7 de Janeiro de 1939; e este ano, o decisivo encontro entre Argentina e França foi apitado pelo polaco Szymon Marciniak, que nasceu a… 7 de Janeiro de 1981.
Afastado nos Quartos-de-Final do Mundial do Qatar pela Croácia, após desempate por grandes penalidades, o Brasil só por uma vez tinha sido eliminado com recurso a penaltis nos Quartos de um Campeonato do Mundo: em 1986, claro, contra a França; o Canadá somava apenas uma participação em Mundiais, 1986, e regressou à maior competição de Seleções este ano; e por fim, Portugal perdeu com Marrocos na fase de grupos do torneio do México, e no Qatar voltou a sair derrotado do embate com os norte-africanos.
Além de todas estas semelhanças futebolísticas, houve ainda quem se baseasse noutras que nada têm a ver com futebol, mas sim com cinema: há 36 anos, o filme “Top Gun” teve a maior receita de bilheteira a nível Mundial e, este ano, a película “Top Gun: Maverick” também registou esse recorde; enquanto que em 1986, Robert De Niro esteve na Argentina para gravar o filme “A Missão” e em 2022 voltou ao País para graver cenas da série “Nada”.
Com ou sem “intervenção” de todas estas superstições, o que é certo é que a Argentina se sagrou Campeã do Mundo pela terceira vez na história em 2022, depois dos êxitos em 1978 e 1986.

Mundial 2010: o último tango de El Pibe imortal

maradonaselecionador(Diego Maradona levou a sua Argentina ao Mundial 2010, mas não conseguiu repetir a proeza de 1986.)

Em plena altura de Mundial, ainda que este tenha contornos absolutamente inéditos na História do futebol, é inevitável puxar a cassete atrás e recordar memórias de edições passadas que se tornaram para sempre parte do nosso imaginário, na que é indubitavelmente a mais apaixonante competição de futebol que existe. Os mais antigos recordam a epopeia doa Magriços em 1966, o incrível futebol “joga bonito” do Brasil em 1970 (deu tri) e 1982 (deu… desilusão), o torneio ganho “por Maradona” em 1986 (mais o famigerado caso Saltillo) ou a loucura de Higuita/bailado de Roger Milla em 1990; os da minha geração vão ao Mundial francês de 1998 ou ao primeiro asiático de sempre, em 2002, de má memória para as nossas cores mas sinónimo de penta nos nossos irmãos canarinhos; os mais novos… bem, esses só querem saber de Cristiano Ronaldo, Messi e Mbappé, por isso, não entram nestas contas! eheheh

Podia ir pelo caminho simples e lembrar o primeiro Mundial que vi, que normalmente é sempre aquele que mais nos apaixona – e neste caso não foge à regra: o França 98. Mas não o vou fazer. E também não vou falar de 1986, pois ainda nem sequer tinha vindo ao mundo – vi mais tarde, nas velhinhas VHS, os feitos do mais genial futebolista de todos os tempos, bons e maus mas sempre bons porque feitos por ele. Mas sim, vou falar do Mundial onde tive o privilégio de ver de facto Maradona em acção, ainda que de uma perspectiva diferente: o África do Sul 2010.

maradonamessi(Messi e Maradona são, inequivocamente, as grandes figuras do futebol argentino.)

Com uma “carreira” de treinador pífia (cingia-se a duas experiências muito breves no Textil Mandiyú e no Racing Avellaneda nos anos 90, tendo ainda voltado aos relvados pelo Boca Juniors nas épocas seguintes), Maradona teve a oportunidade de uma vida quando, em 2008, Alfio Basile se demitiu do cargo de seleccionador argentino. El Pibe candidatou-se de imediato ao lugar e Julio Grondona acabou mesmo por contratá-lo, apesar do mar de críticas que se levantaram pelo currículo quase inexistente enquanto técnico – de facto, nem os maiores heróis escapam ao crivo popular.

A verdade é que o antigo astro dos relvados acabou por conseguir levar a sua avante e qualificar a Argentina para o Mundial 2010, algo que esteve realmente em perigo até apenas duas jornadas do fim da fase de apuramento. Ficará para sempre na memória a célebre conferência de imprensa após a obtenção do objectivo, cujas palavras de Maradona não irei aqui repetir, embora vá para sempre lembrar: aquilo era Maradona, puro e duro como sempre foi.

Chegamos assim ao primeiro Mundial africano da História, que foi de facto um dos que mais me apaixonou até hoje. Do golo inaugural de Tshabalala à inacreditável defesa de Casillas perante um Robben isolado que valeu o inédito título a Espanha, passando pela derrocada da campeã mundial em título Itália (eliminada na fase de grupos, terminando atrás de Eslováquia, Paraguai e Nova Zelândia), a presença da Coreia do Norte no grupo de Portugal ou a “defesa” de Luis Suárez que valeu um vermelho… e a passagem uruguaia às meias-finais – ou até mesmo o facto de ter sido o primeiro Mundial que segui em trabalho enquanto jornalista, tudo fez com que ficasse na minha memória como dos melhores que vi. E sim, até tendo em conta as inenarráveis vuvuzelas…

higuain(Higuaín apontou um hat-trick à Coreia do Sul e foi um dos principais destaques argentinos no Mundial realizado na África do Sul.)

E depois, no meio de tudo isso, havia a Argentina de Maradona – o mister Maradona, de fato e gravata, barba farta e uma figura um bocadinho mais avantajada que nos tempos de jogador mas ainda assim a aparentar bem mais saúde do que em anos passados. Uma Argentina que, diga-se, deslizou pela fase de grupos qual bailarina ao som de Tchaikovski: se o 1-0 inaugural à Nigéria foi para aquecer, o 4-1 à Coreia do Sul mostrou ao que vinham os pupilos de El Pibe, que rejubilou com o hat-trick de Higuaín. E ainda houve tempo para ver o “velhinho” Palermo estrear-se em Mundiais… com um golo, pois claro: 2-0 à Grécia e fase de grupos imaculada, que de repente transformava os argentinos num dos principais candidatos à conquista do troféu – a velha história do 8 e do 80, pois claro.

Seguiu-se o México, sempre incómodo… mas também com a garantia de que chega aos oitavos-de-final e por ali se fica. E ficou: 3-1 para a Argentina, com futebol de primeira água e encontro marcado para os quartos-de-final com a poderosa Alemanha, que tinha acabado de despachar a eterna candidata Inglaterra por claros 4-1. Esperavam-se dificuldades para a alvi-celeste mas num jogo renhido e equilibrado – verificou-se apenas a primeira: se ao intervalo ainda estava tudo em aberto, mercê do golo madrugador de Muller (um dos melhores jogadores e marcadores da prova), já na segunda parte bastaram seis minutos para os alemães arrumarem de vez com a eliminatória, havendo ainda tempo para o fenómeno Klose bisar e aumentar ainda mais a sua lenda em Mundiais rumo ao topo dos marcadores de todos os tempos.

AlemanhaArgentinaMundial2010(O momento em que Miroslav Klose se prepara para fazer o 4-0 final com que a Alemanha derrotou os argentinos nos Quartos-de-Final do Mundial 2010.)

Na altura ainda não se sabia, mas este viria a ser o último episódio de Maradona enquanto actor principal num Mundial. É verdade que a selecção argentina foi recebida em festa no seu país, com o seleccionador a ser quase tão celebrado como 34 anos antes, e durante algumas semanas a sua continuidade no cargo até 2014 era dada como certa; a 27 de Julho, porém, Grondona anunciou que o contrato não iria ser renovado, explicando que tal se deveu a recusa liminar de Maradona em proceder a alterações na composição da sua equipa técnica.

El Pibe tinha então 49 anos e pouco depois foi oficializado como técnico do Al Wasl, nos Emirados Árabes Unidos. Por lá ficou um ano, até que em 2017 regressou àquele país árabe para assumir o comando do secundário Al-Fujairah. Falhado o objectivo da subida de divisão, rumou no ano seguinte ao México, também para o segundo escalão, ficando muito perto de conseguir a promoção no Dorados de Sinaloa, o qual abandonaria no fim da época por motivos de saúde. Após uma mediática e inusitada passagem meteórica pela presidência do Dynamo Brest, da Bielorrússia, regressou aos comandos de uma equipa do seu país em 2019 pela porta do Gimnasia de la Plata, cargo que manteve até ao dia do falecimento, a 25 de Novembro de 2020.

maradona86(Diego Armando Maradona guiou, como se sabe, o “País das Pampas” ao título Mundial em 1986.)

Maradona é Mundial e falar de Mundiais é falar de Maradona. Todos recordam (ou pelo menos conhecem) a lenda de 1986 e o seu seguimento quatro anos depois, onde ainda que com menor fulgor voltou a guiar a sua Argentina amada à final do maior palco futebolístico do mundo. 20 anos volvidos, porém, ainda houve outra vez Maradona: sim, o show foi menor e mais comedido e o desfecho não foi o mais estrondoso, mas não se pode pôr um preço ao que significa Maradona novamente na maior competição de futebol do planeta. Infelizmente será irrepetível; felizmente, aconteceu.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Palermo: o homem dos três penaltys falhados que foi muito mais que isso

palermoboca(Martín Palermo é um ídolo eterno do Boca Juniors e é o melhor marcador da história do clube.)

O dia 4 de Julho de 1999 ficou para a História da Copa América, em primeira instância, mas também de todo o futebol mundial, na verdade, e devido a vários factores. Naquele fim de tarde no Estádio Feliciano Cáceres, em Luque, Paraguai, houve por exemplo um vermelho directo para Javier Zanetti, uma raridade ao longo da carreira do lendário lateral-direito argentino; mas houve também cinco penaltys assinalados, dos quais apenas… um foi convertido, e neste particular um nome ficaria marcado para sempre – até porque ainda hoje continua a deter esse nada feliz recorde no livro do Guinness: Martín Palermo, o homem que falhou três grandes penalidades no mesmo jogo.

Cinco minutos, primeira chance: após mão na bola por parte de Alexander Viveros, lateral-esquerdo colombiano que quatro mais anos mais tarde seria contratado pelo Boavista, “El Loco“ Palermo (sim, a alcunha tinha razão de ser, como se vai perceber facilmente) partiu para a marca dos 11 metros pela primeira vez. Por essa altura já somava dois golos na prova, ambos apontados no triunfo por 3-1 sobre o Equador na primeira jornada da fase de grupos. Viria a marcar mais um… mas não nesse dia.

palrmoestudiantes(Foi no Estudiantes de La Plata que o ponta de lança se formou e estreou no futebol profissional.)

Primeira chance, dizíamos antes… primeiro falhanço. A bomba enviada pelo pé esquerdo do goleador natural de La Plata foi direitinha ao centro… da trave da baliza à guarda de Miguel Calero. Aos 76 minutos chegaria a segunda, numa altura em que a Colômbia vencia por 1-0, com golo… de penalty logo ao minuto 10 (e outro seria falhado aos 48): cabeceamento de Palermo, mão na bola… de Viveros. “El Loco”, com a sua poupa loira, avança mais uma vez para bater… e mais uma vez atira um míssil à trave colombiana, com a bola a voar para outro planeta após o embate estrondoso, a que se seguiu a imagem do puxão dos calções para cima com as duas mãos que se tornou icónica.

Minuto 90, Argentina já a perder por 3-0 mas nunca rendida, Palermo supera a oposição do capitão Bermúdez (o tal ex-Benfica) e vai ao chão na área colombiana após contacto muito (mesmo muito) subtil com Iván Córdoba. Terceira chance. “El Loco” agarra a bola de imediato, respira fundo, tira as mãos das ancas, parte para o remate e atira para a sua direita, com o guardião Miguel Calero a adivinhar e a defender para canto. Pouco depois, o apito final perante o olhar incrédulo do goleador platense. “O Bielsa [seleccionador] disse-me que eu fui egoísta. Eu disse-lhe que ninguém queria bater ou ninguém me disse para não bater. Ninguém veio apanhar a bola para marcar o terceiro penalty. Estava prestes a rebentar nesse momento, a minha concentração era quase zero. Senti-me como um cão abandonado. Foi uma experiência ruim que tive naquela Copa América. Lembro-me sempre dessa situação, é algo que não desejo a nenhum jogador”, disse já várias vezes depois disso.

palermoargentina(O célebre momento em que Palermo puxou os calções após falhar a segunda de três grandes penalidades que desperdiçou diante da Colômbia.)

Como é fácil de perceber, não se ganha a alcunha de “El Loco” apenas por uma situação como esta (que nem é de todo responsabilidade unicamente sua, obviamente). Por essa altura, aos 25 anos, Palermo era um dos grandes (provavelmente o maior) avançados argentinos ainda a jogar no seu país, totalizando 56 golos em 75 jogos pelo Boca Juniors, onde tinha chegado no início de 1998 após formação e início de carreira sénior num dos grandes da sua cidade natal, o Estudiantes. Pelo Boca, coleccionou episódios que explicam o epíteto, desde apontar o seu centésimo golo como profissional enquanto se preparava a sua substituição após sofrer uma ruptura dos ligamentos cruzados (acabaria por marcar também no primeiro jogo após a recuperação da lesão, nos quartos-de-final da Copa Libertadores diante do eterno rival River Plate, num tento que ficaria para sempre conhecido como o “Golo de Muletas” ou “El Muletazo”), até ao vermelho por baixar os calções no festejo de um golo ou ainda o penalty apontado com os dois pés – este de forma inadvertida, motivado por um escorregão na hora do remate, mas que acabou por levar a FIFA a rever a lei (hoje, tal lance daria origem à anulação do golo e à marcação de um livre indirecto a favor do adversário). Isto, já para não falar da produção para a revista “Mística” feita aquando da sua contratação pelo emblema Xeneize onde fez capa… vestido de mulher.

Mas havia mais por chegar. Após ser eleito o Melhor em Campo na final da Taça Intercontinental de 2000, onde o Boca venceu o Real Madrid (2-1 com bis de “El Titán”, outra das suas alcunhas), Palermo foi contratado pelo Villarreal, então uma equipa recém-promovida ao principal escalão do futebol espanhol e à procura de se estabelecer na elite. Após 17 jogos e 6 golos nessa segunda metade de 2000/01, “El Loco” somava 4 tentos em 14 partidas no início de 2001/02 quando sofreu uma das lesões mais caricatas de que há memória: ao festejar o golo que punha o Villarreal na frente no prolongamento de uma partida da Copa do Rei diante do Levante, Palermo decidiu saltar para a bancada para festejar com os adeptos; o pequeno muro que separava o relvado da mesma, porém, acabou por ceder com o peso destes e tanto a estrutura como os fãs acabariam por cair… em cima da perna esquerda do avançado. Resultado? Dupla fratura da tíbia e do perónio e mais cinco meses fora dos relvados.

PalermoVillarreal(O Villarreal foi o primeiro clube de “El Loco” na Europa.)

A experiência europeia, na verdade, acabaria por ser pouco positiva para Palermo. Após dois anos e meio no Submarino Amarelo, com totais de 21 golos em 81 jogos disputados, o atacante mudou-se para o Betis no verão de 2003, apenas para ser cedido ao secundário Alavés no mercado de transferências seguinte. Faltava claramente algo – e o apelo de casa fez toda a diferença: em Julho de 2004, Palermo regressou ao Boca Juniors e recuperou a velha forma, ficando eternos o golo que marcou ao Independiente em 2007 ainda na sua metade do campo ou aquele de cabeça ante o Vélez Sarsfield a… 40 metros da baliza contrária. Mais um recorde para o Guinness – a sério, aconteceu mesmo.

Martín Palermo não foi, nem de perto nem de longe, o mais virtuoso avançado argentino. Limitado tecnicamente, podia considerar-se um jogador lento e a altura (1,88 metros) também não era propriamente assustadora. É, no entanto, ainda hoje o melhor marcador de sempre do Boca Juniors, 11 anos depois do seu último jogo com a camisola Xeneize: foram 237 finalizações certeiras, maioritariamente saídas do fulminante pé esquerdo ou da cabeça sempre acutilante, daquele a quem um dia o lendário técnico argentino Carlos Bianchi apelidou de “optimista do golo” – e a quem o clube pelo qual conquistou 6 campeonatos, 2 Libertadores, 2 Copas Sul-Americanas, 2 Recopas e uma Taça Intercontinental ofereceu, no momento do adeus aos relvados, a trave de uma das balizas do mítico La Bombonera.

palermo1(Palermo conquistou duas Libertadores ao serviço do Boca.)

Mas a História de Palermo na selecção argentina teve também ela mais capítulos após “aquela” fatídica tarde/noite de 1999. Até marcou logo no jogo seguinte, numa vitória por 2-0 sobre o Uruguai, mas depois da eliminação nos quartos-de-final diante do Brasil não mais seria chamado… até 2009, quando Diego Maradona, seu colega no Boca durante alguns meses em 1997, o convocou para a antepenúltima ronda da fase de apuramento para o Mundial do ano seguinte – que a Argentina até perdeu, por 1-0, no… Paraguai, precisamente o país onde se deram os três falhanços. Palermo não marcou nesse jogo, mas voltou a ser chamado na convocatória seguinte e em boa hora: depois de bisar perante o Gana, fazendo o resultado da partida de carácter particular, seria lançado ao intervalo da recepção ao Peru para fazer em cima do apito final o golo que garantiu a vitória da selecção alvi-celeste (2-1) e a manteve na luta pelo apuramento para o Campeonato do Mundo da África do Sul. “Mais um milagre de São Palermo”, disse então o seleccionador, que nos festejos mergulhou… quase literalmente, atirando-se para um relvado encharcado pela chuva torrencial que caía em Buenos Aires nesse dia 10 de Outubro de 2009.

Palermo tinha na altura 36 anos e conquistou dessa forma o lugar na lista final para a prova africana, na qual fez apenas 10 minutos… e marcou, no caso fazendo o 2-0 à Grécia na terceira ronda da fase de grupos, na recarga a um primeiro remate do capitão Lionel Messi. Esta seria a última das suas 15 internacionalizações e também o último dos 9 golos pela equipa das Pampas – além de se tornar o mais velho argentino de sempre a estrear-se e a marcar num Mundial, superando o próprio Maradona, e o primeiro jogador do Boca Juniors a marcar na prova em 80 anos.

palermobocaj(Martín Palermo teve duas passagens distintas pelo Boca Juniors, a primeira entre 1998 e 2001 e a última entre 2005 e 2011.)

Hoje (que é como quem diz, desde 2013) treinador – acaba, de resto, de ser oficializado pelo Platense para a próxima temporada – e a celebrar o 49º aniversário, Martín Palermo foi um dos últimos grandes goleadores-guerreiros, aqueles pontas-de-lança com pouco estilo mas muita eficácia que nunca agradam a todos os adeptos. “El Loco”, porém, agradou a quem tinha de agradar, erguendo-se sempre perante a adversidade – além das lesões, perdeu também um filho recém-nascido em 2006, optando por jogar na partida que se disputou quatro dias depois e marcando dois golos, festejados em lágrimas a olhar para o céu. A sua vida dava um filme… e deu: “Titán”, lançado em 2019 com argumento co-escrito por… Álvaro Recoba, lenda do futebol uruguaio. A sério: tudo o que leu aqui é verdade. Palermo, de facto, foi muito mais que apenas o argentino dos três penaltys falhados num só jogo.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Hugo Ibarra: um ídolo eterno

ibarra(Hugo Ibarra e a sua equipa técnica com o troféu de Campeão Argentino conquistado este domingo.)

Foi com contornos de dramatismo que o Boca Juniors se sagrou ontem Campeão Argentino: à entrada para a última ronda, a turma “xeneize” partia com um ponto de vantagem sobre o Racing, que defrontava o River Plate, e só precisava de fazer resultado igual ou melhor em relação à equipa de Avellaneda para poder festejar.
Na mítica Bombonera, o Boca não foi além de um empate a duas bolas com o Independiente, e, ironicamente, precisou da ajuda do seu maior rival para ser Campeão: em Avellaneda, o Racing adiantou-se no marcador, sofreu o empate aos 80′, e aos 90′ beneficiou de uma grande penalidade, com Jonathan Galván a permitir a defesa de Franco Armani. Pouco depois, o colombiano Miguel Borja fez o 2-1 (90’+5) para o River e despoletou a festa em Buenos Aires, naquele que terá sido, muito provavelmente, o primeiro golo da história do River Plate festejado por adeptos do Boca Juniors.
No meio de tudo isto, um nome merece ser destacado: Hugo Ibarra. O antigo defesa direito foi uma referência do Boca enquanto jogador, e agora entra para a história do seu clube como treinador, depois de ter assumido o comando da equipa há pouco mais de três meses, em virtude da saída de Sebastián Battaglia, despedido após a eliminação da Libertadores aos pés do Corinthians.
Inicialmente, o ex-futebolista, que treinava a segunda equipa do Boca Juniors, até foi promovido de forma interina à formação principal, mas mereceu o voto de confiança da direção azul e amarela, somando treze vitórias, quatro empates e quatro derrotas em vinte e um jogos na Superliga Argentina, que permitiram ao clube localizado no bairro de La Bombonera festejar o título com mais dois pontos que o Racing.
Como jogador, Hugo Ibarra teve três passagens distintas pelo Boca: a primeira foi entre 1998 e 2001; a segunda foi na época 02/03, emprestado pelo FC Porto depois de ter sido a transferência mais cara da história dos dragões até então e de não se ter conseguido afirmar nas Antas; e a última durou de 2005 a 2010, terminando aí a carreira com um total de 270 jogos e doze títulos pelo emblema “xeneize”, com destaque para quatro Libertadores e uma Taça Intercontinental.
Aos 48 anos, Hugo Ibarra é, definitivamente, um ídolo eterno do Boca.

Benfica – River Plate: Aimar, Saviola e Enzo Pérez como exemplos de sucesso

aimarsaviola(Aimar e Saviola fizeram dupla no River Plate e reeditaram-na no Benfica.)

Contratado ao River Plate por 10 milhões (75% do passe), Enzo Fernández é o mais recente reforço do Benfica e será o nono futebolista a representar os dois clubes, numa lista que conta com nomes conceituados como são os de Aimar, Caniggia, Enzo Pérez ou Saviola.
Porém, o promissor médio argentino é apenas o segundo jogador a sair diretamente dos “Millonarios” para a Luz, numa “via” que foi inaugurada pelo avançado Rogelio Funes Mori, em 2013, isto já depois do lateral direito Ricardo Rojas ter sido o primeiro a fazer o caminho inverso, ou seja, deixar o Benfica para rumar ao Estádio Monumental.
Emprestado em Fevereiro de 2001, Rojas não teve de esperar muito tempo para receber um ex-companheiro do Benfica no River: em Julho do mesmo ano, o chileno Escalona, lateral esquerdo, rescindiu com os encarnados e rumou ao gigante argentino, encerrando uma passagem pouco feliz por Portugal, em que até teve o passaporte apreendido pela Polícia Judiciária.
De resto, Caniggia foi o primeiro argentino a representar River Plate e Benfica: formado precisamente no clube de Buenos Aires, o avançado despontou na primeira equipa, veio para a Europa e em 1994 chegou ao Benfica, por quem atuou uma época. Curiosamente, no final de 94/95, regressou ao seu País para jogar no… Boca Juniors!
Pablo Aimar e Javier Saviola formaram uma dupla fantástica no River durante cerca de três anos, saíram ambos para o futebol espanhol, e em 2009 reencontraram-se no Benfica: Aimar chegou um ano antes do compatriota, mas ainda foram a tempo de cumprirem três temporadas na Luz. E em 2015 ambos regressaram ao Monumental.
Rodrigo Mora será, porventura, o jogador com passagens pelos dois clubes que menos saudades deixou aos adeptos benfiquistas: comprado aos uruguaios do Defensor Sporting, em 2012, o ponta de lança fez apenas três jogos pelas águias e, em 2013, foi emprestado ao River Plate, clube onde voltaria em 2015 já sem ligação ao Benfica.
Por fim, Enzo Pérez: o extremo que Jorge Jesus converteu num fantástico médio, trocou o Estudiantes pelo Benfica em 2011, e no Verão de 2017 deixou o Valencia para jogar no River, sendo que, atualmente, com 36 anos, ainda representa os “Millonarios” de Buenos Aires – e no ano passado até foi guarda-redes durante 90 minutos na Libertadores.
De todos estes, note-se que apenas Aimar, Saviola e Enzo Pérez foram bem sucedidos na Luz: o trio aliou o rendimento desportivo aos títulos e ficou numa “parte boa” da história encarnada, ao contrário de Escalona, Funes Mori, Rodrigo Mora e Rojas, que nunca se conseguiram impôr. Já Caniggia, apesar da qualidade que lhe era reconhecida, teve também uma passagem discreta pelo Benfica, ficando até célebre por ser expulso de forma errada por Jorge Coroado num derby com o Sporting. Agora, tem a palavra Enzo Fernández.

De Fuerte Apache para o Mundo: a incrível viagem de Carlos Tévez

tevez(Carlos Tévez é um ídolo do Boca Juniors.)

Nascido e criado num dos bairros mais perigosos da Argentina, Fuerte Apache, Carlos Tévez agarrou-se ao futebol para fugir aos maus caminhos e o resultado está à vista: uma carreira brilhante que agora chegou oficialmente ao fim.
Ontem, em entrevista a um programa de televisão argentino, Tévez, que estava sem jogar desde Junho do ano passado, anunciou o final da sua carreira, afirmando que a morte do Pai, que considerava o seu fã número 1, lhe tirou a vontade de jogar, apesar de ter recebido vários convites para continuar, incluindo do Boca Juniors, emblema tudo começou.
O Boca é, de resto, o clube da vida de Carlitos: formado nos “xeneize”, estreou-se na equipa principal somente com 16 anos, e mais tarde, já depois de ter representado grandes clubes europeus, teve mais duas passagens pela Bombonera, a primeira entre 2015 e 2017, e a segunda entre 2018 e 2021.
Lançado para a ribalta ainda muito jovem, Tévez não “tremeu” e afirmou-se como uma das grandes figuras da fantástica equipa do Boca que brilhou entre 2003 e 2004: nesse período, os argentinos venceram a Libertadores, a Taça Intercontinental e a Copa Sul-Americana – além do Torneo Clausura de 2003 – e o avançado apontou 32 golos em 80 jogos.
A Europa parecia ser o destino provável do “Apache”, alcunha que lhe foi dada precisamente devido às suas origens, mas este acabaria por se mudar para o Corinthians: os brasileiros haviam celebrado uma parceria com o fundo de investimento MSI, estavam fortes e ativos no mercado e fizeram dele a transferência mais cara do futebol sul-americano até então.
Tévez esteve pouco mais de ano e meio no “Timão” e nos últimos dias do “mercado de Verão” de 2006 chegou finalmente à Europa mas por uma porta inesperada: West Ham. Uma época nos “hammers” e na Premier League foi o suficiente para rumar ao Manchester United, por quem apontou 34 golos em 99 jogos e onde conquistou a única Liga dos Campeões do seu currículo.
Surpreendentemente, no Verão de 2009, Carlitos trocou de clube mas manteve-se na cidade de Manchester, rumando ao rival City, entretanto já milionário: foram quatro temporadas no Ettihad, coroadas com muitos golos, algumas polémicas e o tão ambicionado título inglês que os “citizens” procuravam há décadas.
De seguida, em 2013, iniciou aquela que seria a sua última experiência no “Velho Continente”, assinando pela Juventus, onde cumpriu duas épocas antes de voltar a casa para terminar a carreira, apesar de em 2017 ter interrompido a sua passagem pelo Boca devido a uma proposta financeiramente irrecusável dos chinenses do Shanghai Shenhua, que o tornaram num dos jogadores mais bem pagos do Mundo.
Campeão Olímpico pela Argentina (2004), Carlos Tévez, que em criança sofreu um acidente com água a ferver que lhe deixou uma grande cicatriz no pescoço, registou 76 internacionalizações A pelo seu País (13 golos), disputou os Mundiais de 2006 e 2010, e em 2019 lançou um documentário sobre a sua vida e o seu trajeto profissional.
Agora, aos 38 anos, o Homem que fintou os maus vícios de Fuerte Apache, coloca um ponto final numa “viagem pelo Mundo” recheada de títulos, com a certeza de que tudo valeu a pena.

Kun Agüero: o fim imerecido do herói de Manchester

aguero(Agüero festeja o golo ao QPR que fez do City Campeão em 2012.)

No futebol, como na vida, nem sempre os grandes protagonistas têm finais felizes e Kun Agüero é um deles: aos 33 anos, o argentino, reforço do Barcelona para 21/22, vê-se obrigado a finalizar precocemente a carreira devido a um problema cardíaco descoberto já no decorrer desta temporada.
É um ponto final imerecido para um brilhante jogador que tem o seu nome escrito a “letras de ouro” na história do futebol, e, principalmente, do Manchester City, clube onde passou mais anos e por quem vestiu a “capa de herói” no título inglês ganho de forma dramática em 2012.
Formado no Independiente, Sergio Agüero estreou-se pela primeira equipa aos 15 anos (!), em 2003, e volvidos três anos foi vendido ao Atlético de Madrid por um valor acima dos 20 milhões de euros: nos colchoneros, “El Kun” virou ídolo dos adeptos, fez uma dupla temível no ataque com outro sul-americano, Forlán, e os mais de cem golos que apontou, ajudaram o Atleti a vencer a Taça Intertoto, a Liga Europa e a Supertaça Europeia.
Em 2011, o City acenou-lhe com proposta e projeto tentadores e Agüero não resistiu: mudou-se para Inglaterra e sob as ordens de Roberto Mancini entrou para a história logo na época de estreia, quando apontou o célebre golo ao QPR no último minuto da última jornada da Premier League que fez dos “citizens” Campeões 47 anos depois.
O argentino passou dez anos nos azuis de Manchester, apontou 260 golos em 390 partidas, conquistou cinco Campeonatos, uma Taça de Inglaterra, seis Taças da Liga e três Supertaças, tornou-se o melhor marcador estrangeiro da Premier League e deixou uma marca e legado bem fortes que terminaram no último Verão.
Reforço do Barcelona a custo zero, Agüero começou por ver a possibilidade de ser companheiro de Messi esfumar-se, sofreu algumas lesões que atrasaram o seu contributo à equipa e em Novembro viu-lhe ser diagnosticada uma arritmia cardíaca, que, soube-se hoje pelo próprio, ditou o fim de uma carreira que não merecia, de forma alguma, acabar assim – fez apenas cinco jogos e um golo (ao Real Madrid) pelo Barça.
Campeão Olímpico e duas vezes Campeão Mundial Sub-20 pela Argentina, Kun Agüero apontou 41 golos em 101 jogos pela Seleção A e ainda foi a tempo de conquistar um troféu pela principal seleção, participando na Copa América deste ano ganha pelo “País das Pampas”.
A retirada forçada de Sergio “Kun” Agüero é, ao mesmo tempo, a saída de cena de um dos melhores jogadores da última década. E quem perde é o futebol.

Lisandro López: o adeus ao Racing do ídolo de verdade

lisandro(Lisandro despediu-se ontem do Racing pela terceira vez enquanto jogador.)

“Olele, olala, Lisandro es de Racing, de Racing de verdad”. Uma simples canção diz muito daquilo que Lisandro López significa para o Racing de Avellaneda, e, claro, para os seus adeptos.
Aos 38 anos, o antigo avançado do FC Porto despediu-se ontem, pela terceira vez na carreira, do Racing, e ninguém presente no “Cilindro” conseguiu conter a emoção: além dos abraços normais dos colegas, Licha foi também calorosamente abraçado pelo árbitro do encontro, isto enquanto os adeptos do Racing lhe entoavam cânticos em jeito de homenagem e agradecimento.
Afinal, quando eles dizem que “Lisandro é do Racing, do Racing de verdad”, não mentem: o argentino nunca escondeu que o Racing era o seu clube do coração, por quem teve três passagens distintas, a primeira no início do milénio e as outras duas já na casa dos 30 anos – saiu em Janeiro deste ano para os Estados Unidos mas em Abril já estava de volta -, e em 2019 foi uma das grandes figuras na conquista do título que escapava há… 53 anos.
Descoberto por olheiros do emblema de Avellaneda quando tinha 18 anos, Licha iniciou aí a sua história de amor com o Racing: estreou-se na equipa principal em 2003 e foi o melhor marcador do Torneo Apertura em 2004, tudo isto antes de ser vendido ao FC Porto no Verão de 2005.
Após dez anos fora do seu País, em que além da passagem por Portugal, jogou em França (Lyon), no Qatar (Al-Gharafa) e no Brasil (Internacional), Lisandro voltou ao Racing no início de 2016, então com 32 anos, e em 18/19 foi o melhor marcador do Campeonato, com 17 golos aos 36 anos, ajudando o mítico clube argentino a sagrar-se Campeão após um longo período de “seca” – juntou ainda ao currículo o Torneo de Campeones, após derrotar o Tigre.
No início deste ano, ainda decidiu voltar a emigrar novamente, mas a experiência na MLS, ao serviço do Atlanta, durou pouco tempo: cerca de três meses depois, o goleador regressou ao Racing, agora sim, para encerrar em definitivo o seu capítulo de jogador no clube, acabando esta época com cinco golos em trinta e um jogos.
Ontem, na receção ao Godoy na última jornada do Campeonato, Lisandro, que não se encontrava a 100%, durou pouco mais de quinze minutos em campo, saindo aos 18′ para a ovação final – numa partida em que todos os jogadores do Racing usaram o nome Lisandro nas costas, a equipa da casa venceu por 2-1 com dois golos de Javier Correa, jogador que rendeu Licha.
Ainda sem haver uma notícia pública acerca do futuro de Lisandro López, certo é que o avançado mereceu a despedida emotiva que teve, até porque ele é um ídolo do Racing. Um ídolo de verdade.