Frédéric Maciel: “Tenho mostrado em campo que posso jogar em qualquer equipa”

(Frédéric Maciel reforçou o CSKA 1948 no Verão de 2025.)

A cumprir a segunda temporada nos búlgaros do CSKA 1948, Frédéric Maciel está a viver o melhor arranque da sua carreira: em 6 jogos no Campeonato, já apontou 5 golos e fez uma assistência, sendo que bisou por duas vezes e contribuiu diretamente para a conquista de 7 pontos – a sua equipa divide a 3ª posição com mais 2 adversários.
Nascido em Grenoble, onde os seus Pais estiveram emigrados, o extremo destacou-se ao serviço do FC Porto, por quem “só” chegou à equipa B, e além da experiência na Bulgária já esteve na Bélgica (Mouscron) e na Roménia (Otelul Galati), tendo também representado Moreirense, Gil Vicente, Varzim, Lusitânia de Lourosa e Torreense.
Atualmente com 32 anos, Frédéric Maciel, que marcou 6 golos em 43 internacionalizações por Portugal entre os Sub-16 e os Sub-19, é o jogador entrevistado esta semana no âmbito da nossa parceria com a página À bola pelo mundo, e assume que está no seu melhor momento em termos físicos, confessando ainda ter o sonho de disputar a fase Liga de uma prova europeia depois desta época ter jogado pré-eliminatórias da Conference League:

À Bola pelo Mundo/Conversas Redondas: Já tens quase as mesmas contribuições para golo esta época do que na anterior. A que se deve essa melhoria, especialmente na parte da finalização?
Frédéric Maciel: O ano passado foi complicado. No Otelul estava numa equipa com muitos adeptos, estádios sempre cheios, e quando cheguei aqui, percebi que os adeptos estão no outro CSKA, que tem mais história e tradição, vi o nosso estádio sempre vazio… É desmotivador, a mudança afetou-me um bocado. E depois também fui pai, tenho uma menina de 14 meses, nasceu mesmo antes da pré-época, e a vida mudou bastante, o sono mudou bastante (risos)! Agora já voltou tudo à normalidade, as coisas já acalmaram e tudo o que é extra-futebol estou muito mais preparado. Marcar um golo cedo também ajuda bastante, parece que abre as portas para que a época seja melhor.

Quais são os objectivos do clube para esta época, depois de um segundo lugar na tua temporada de estreia?
O nosso presidente é ambicioso, o clube tem um bom orçamento, paga muito bem, muitos bónus e assim. Temos um plantel de 30 jogadores, todos a quererem jogar e tudo a receber bem (risos)! Há muita luta para o onze inicial. Eles no clube querem ser campeões, mas temos de olhar para todas as equipas, o Levski por exemplo volta a ter uma excelente equipa, e já facilitámos no início, perdemos 5 pontos, vai complicando as coisas. É possível se jogarmos bem, porque temos uma equipa muito boa em termos de individualidades. Vamos ver como equipa. Na Europa tínhamos o desejo de chegar à fase de liga mas não tivemos sorte no adversário, havia mais acessíveis, mas ainda assim podíamos ter ganho, tanto na Grécia como em casa. Não foi assim tanta diferença dentro do campo.

Como surgiu a possibilidade de ires para a Bulgária?
O presidente é muito activo, gosta muito de contratar, até de dar opinião em relação ao 11 inicial (risos)! Ele tem um programa próprio de scouting e ligou-me diretamente para me perguntar as condições. Recusei a primeira vez, tinha muitas abordagens, da Roménia, Grécia, Azerbaijão. Mesmo na nossa I Liga não ia ser fácil ter um salário como tenho aqui. Não pensava seguir este caminho, mas depois de ver as condições contratuais, com 3 anos de contrato para um jogador de 31 anos, é sempre uma salvaguarda. Até agora pagaram sempre tudo certinho, tenho bónus de vitórias, de golos, de assistências pagos na semana a seguir ao jogo. A não ser os 3 grandes, duvido que algum clube em Portugal consiga pagar o que eu recebo aqui. Não tenho nada a apontar.

(Em duas temporadas ao serviço do Otelul Galati, o extremo registou 13 golos e 13 assistências em 78 jogos.)

Foi também com a perspectiva de poderes jogar competições europeias que decidiste aceitar o convite? Estavas bem na Roménia, fizeste lá duas boas épocas!
Sabia que vinha lutar pelos lugares mais acima e claro, poder experimentar competições europeias. Joguei contra o Panathinaikos e não me senti inferior a ninguém. Fisicamente estou muito bem, as coisas alinharam-se finalmente. Não tive um percurso fácil depois de sair da formação, as pessoas falam mas não sabem a minha história, tive de fazer três operações, metatarsos do pé direito, o calcanhar, parti o nariz… Foram lesões nos ossos, que não posso controlar. Alimento-me bem, não fumo, não bebo, sempre me cuidei para estar bem fisicamente. Tem-se visto no campo que afinal não estou morto e posso jogar em qualquer equipa.

Como é que foi visto aí o facto de o Ludogorets finalmente não ser campeão?
Foi uma alegria para todo o país! Eles conseguem atrair jogadores muito bons pela parte monetária, mas têm poucos adeptos, é mais um projeto de um presidente com muito dinheiro. O Levski ou o “outro” CSKA são quem tem mais adeptos.

Como é viver aí? O clima, a comida, as pessoas, a comunicação…
É diferente da Roménia, foi uma agradável surpresa lá, não estava à espera. O campeonato, as pessoas, muito parecidas connosco, felizes, sempre a tentar ajudar. Estádios cheios, relvados bons. Os jogadores de futebol lá são idolatrados, há adeptos em todo o lado, gostei bastante. Aqui não há tantos adeptos e as pessoas são um pouco mais frias, falam pouco inglês, e algumas vezes parece que também não querem ajudar, não se importam se a pessoa consegue falar búlgaro ou não. Na Roménia quase todos falavam inglês, mas eu aprendi romeno muito rápido. Aqui ainda não falo porque o alfabeto é diferente e é muito difícil.
Em Sófia não falta nada, é uma capital com tudo o que encontramos nos outros países da Europa. Há parques em todo o lado, muitas coisas para bebés, eles ligam muito a essa parte.
Eu não como carne desde o COVID, como peixe, ovos, por aí. Já não comia carnes vermelhas antes, e nessa altura cortei completamente. Diziam-me sempre que precisava de comer carne para ter força, e curiosamente desde que deixei tem coincidido com a minha melhor forma (risos)! Aqui há muito peixe, claro que não tem nada a ver com o nosso peixinho, mas come-se bem. Como vivo na capital não vejo muita coisa mais diferente, na Roménia vivia a 3, 4 horas da capital e aí sim, comia coisas mais típicas da região onde vivia.
Este ano tem estado muito calor, mas depois chega perto do Natal e fica bastante frio até Março. Nesses meses é complicado jogar futebol, o campeonato pára a meio de Dezembro, fazemos uma segunda pré-época e depois o primeiro jogo é no início de Fevereiro. Também já me tinha acontecido na Roménia.

(Após ter concluído a formação no FC Porto, o avançado transitou para a equipa B e marcou 14 golos em 14/15.)

E em termos de futebol? A Bulgária surpreendeu-te de alguma forma?
Não conhecia muito, só de ver o Ludogorets nas competições europeias. O futebol é parecido com o da Roménia, que era um pouco superior. Aqui é mais correria, o jogo parte a um certo ponto, mas hoje em dia cada vez se vê menos diferença entre os campeonatos. O Levski jogou com o Braga na época passada para a Liga Europa e foi renhido, o futebol nos campeonatos mais “pequenos” já não é assim tão diferente.

Nasceste em França, vieste para Portugal muito jovem e tiveste uma formação atribulada: Esposende, Varzim, Braga, Sporting, Padroense e FC Porto! Como descreves esse percurso?
Cheguei a ter contrato de formação com o Sporting, mas não me adaptei. Era muita qualidade, tinha na minha equipa Bruma, Carlos Mané, Alexandre Guedes, os manos Ié… Num jogo marcava um golo e fazia uma grande exibição e depois era capaz de ir para o banco e jogava o Bruma e marcava três! Naquela altura queria era jogar e tive sorte que o senhor Aurélio Pereira tinha prometido aos meus pais que, se eu não gostasse, ficava só uma época, e deixaram-me sair. Mas disseram-me que não podia assinar logo nem por FC Porto nem por Benfica, e por isso fui para o Padroense. No FC Porto a equipa também era muito boa mas joguei com regularidade, as coisas correram bem desde o início. Fiz uma formação muito bonita lá, com muitos golos, muito futebol.

(No Gil Vicente, o futebolista luso-francês jogou apenas meia temporada e viveu depois tempos muito difíceis.)

Vais à equipa B ainda júnior, fazes lá 2 épocas inteiras e depois de uma excelente campanha em 2014/15, sais em definitivo para a Bélgica. Porquê?
Faço 14 golos na II Liga e mesmo assim o Lopetegui não me chamou à equipa A para fazer a pré-época. Agi de cabeça quente, podia ter sido emprestado mas fiquei magoado e quis sair. Se tivesse sido emprestado, talvez tivesse sido tudo diferente, talvez tivesse depois voltado e tido uma oportunidade, até porque depois chegou o Nuno e até começaram a apostar bastante em jogadores da formação, como o Rúben Neves, o André Silva… E todos sabem que um jogador, basta fazer nem que seja um jogo na equipa principal de um clube grande, é sempre mais valorizado, tem logo meia Europa atrás dele. Ao longo dos anos fiz vários treinos na equipa principal, logo desde os 17 anos. E até fiz golos! Treinei com Hulk, João Moutinho, Falcao, Quaresma… Esses craques todos.

E porque regressaste a Portugal logo na época seguinte?
Fui um bocado enganado para a Bélgica. Fui com o Pini Zahavi, tinha outras equipas interessadas em mim e pensei que ia para um campeonato melhor, mas ele disse-me: “Vens um ano para aqui e depois vendo-te para outro sítio melhor”. A primeira época não correu muito bem, era a minha primeira experiência fora do FC Porto, mas depois fiz a pré-época, fui o melhor marcador e no primeiro jogo do campeonato não fui convocado. No segundo igual. Até que me disseram que ele estava lá com dívidas e que os jogadores dele estavam a ser encostados. Então decidi voltar para Portugal com o objectivo de fazer uma boa época e voltar a sair para o estrangeiro.

Depois no Moreirense também não correu muito bem e no Gil Vicente foi ainda pior…
Tive uma lesão no calcanhar, pensava que era uma tendinite e andei um ano e tal a jogar com dores e afinal era o osso. No Gil Vicente, o presidente [Francisco Dias da Silva] é talvez a única pessoa que tenho algum… Foi muito feio o que ele me fez. Quando assinei, havia o caso Mateus (com quem acabei por jogar no Torreense mais tarde), naquela época não interessava se ganhávamos ou perdíamos porque no ano a seguir íamos subir. Assinei por 2 anos e meio, pensando: “Vou para a II Liga mas no ano a seguir, que vamos para a I Liga, já estou na frente para ganhar o meu lugar”. Quando foi para começar a época a seguir, adiaram um ano a subida, e entretanto tínhamos descido ao Campeonato de Portugal, então eu disse ao presidente: “Já que este ano não vai valer pontos, vou ser operado e em dezembro se você quiser vou embora ou volto a jogar para estar apto depois para a I Liga”. Respondeu-me “tudo bem, ok”, e depois deixou de me atender o telemóvel, não assinava os papéis para eu ser operado. Estive meses sem poder treinar, o meu pai foi pessoalmente falar com o presidente, ele disse outra vez que sim, para deixar só passar o natal… e nunca mais atendeu o telemóvel nem apareceu. Mandei uma carta para o clube, fui operado, paguei do meu bolso, passados 15 dias voltei ao clube para iniciar os tratamentos e os fisioterapeutas de lágrima no olho disseram que não tinham autorização para me tratar. A partir daí, todos os dias até ao fim do contrato acordava de manhã, ia para lá, não era tratado, ia almoçar e ia depois a uma clínica, pagando do meu bolso, para fazer a recuperação.

(Frédéric Maciel ajudou o Moreirense a fazer história com a conquista da Taça da Liga em 16/17.)

Acabaste por falhar toda a temporada por causa disso e em 2019/20 regressaste às origens (Varzim), mas depois meteu-se o COVID…
No início da época falei novamente com o presidente e disse-lhe: “Estou disposto a apagar tudo o que se passou, se quiser começo a pré-época”. Ele disse-me “ok, se o mister gostar de ti podes ficar”. Fui falar com o mister, que era o Vítor Oliveira, ele disse que me conhecia e não havia problema, se estivesse bem fisicamente. Depois, quando fui para treinar não me deixaram! Puseram-me num balneário à parte, sem poder treinar, e acabei por sair emprestado para o Varzim no último dia do fecho do mercado. Não me pagaram nem um cêntimo desse ano de contrato, tive de ir para tribunal e depois pagaram tudo no último dia possível. Isto tudo porque o presidente meteu na cabeça que eu fui do Moreirense para o Gil só para ser operado… Depois no Varzim entro e faço golo no primeiro jogo, já não jogava um jogo há 14 meses. No jogo a seguir entro e faço uma assistência, depois ia ser titular e parti o nariz num lance com o Pawlowski, que até tinha sido meu colega no FC Porto, deu-me uma cotovelada. Atrasei-me de novo, fiquei mais um mês e tal sem jogar. Entretanto ganhei a titularidade de novo, até joguei contra o FC Porto na Taça, fiz uma assistência, e depois chegou o COVID e acabou a época.

Acabaste por aceitar ir para o Campeonato de Portugal. Não tiveste medo de desaparecer completamente do radar aos 26 anos?
Foi um momento de muitas promessas, o tempo a passar e nada a concretizar-se. O mister Rui Quinta queria-me, eu queria jogar, não queria ficar parado e pensei: “Vou para lá, faço uma época muito boa e volto a subir”. No meu primeiro jogo, perdemos e ele foi despedido (risos)! Depois chegou o Henrique Nunes, que me disse logo “Eu não te conheço! Vou apostar nos gajos que eu conheço”, porque eu vinha de divisões acima e ele tinha muito conhecimento da realidade do Campeonato de Portugal. Eu ri-me e disse: “Não há problema”, fiz duas assistências e depois acabei por ser titularíssimo e gostava mesmo muito dele. Ir ao Campeonato de Portugal foi importante, e numa equipa em que não falta nada. Fico muito contente por terem conseguido subir à II Liga, têm muitos adeptos, têm condições, o presidente não falha com nada.

Vais depois para o Torreense, onde acabou por correr bem, com o regresso à II Liga, mesmo que tenhas sofrido mais uma lesão…
O Lourosa tinha trocado de treinador, chegou o mister Filipe Moreira e ele jogava num sistema sem extremos, não me senti tão desejado. O Torreense ofereceu um pouco mais dinheiro e tinha o mister Daúto Faquirá e o director sempre a ligar-me, senti-me desejado e optei por ir para lá. Acabou por correr bem, subimos de divisão, apesar de ter partido o quinto metatarso e ter de ser operado. Tive sorte porque subimos e pude voltar a jogar a II Liga. Aí não comecei a titular com o mister Nuno Manta Santos mas depois ganhei o meu lugar, como tenho vindo sempre a fazer ao longo da minha carreira, fiz uma boa época e surgiu então a Roménia. Ao início fiquei de pé atrás, as pessoas falam muito sem saber mas foi uma agradável surpresa e recomendo a toda a gente. Em termos futebolísticos, é um campeonato com muita visibilidade. As propostas que recebi depois de fazer uma boa época na II Liga e depois de fazer uma boa época na Roménia não têm nada a ver.

(Na temporada 20/21, o jogador nascido em Grenoble marcou 8 golos pelo Lusitânia de Lourosa.)

Onde gostaste mais de jogar até agora? Que tipo de futebol se adequou mais às tuas características?
Eu adapto-me bem a todas as situações. Quando era miúdo pensava “Eu jogo assim e tenho de jogar assim”. Hoje em dia quero é estar no onze, não perdendo as minhas características e a minha qualidade. No Torreense o mister queria que eu jogasse mais por dentro e não tanto na linha, e adaptei-me. No FC Porto foi tudo muito bom, e pela Roménia tenho um carinho especial, os adeptos gostavam mesmo muito de mim.

Qual o aspecto em que consideras que evoluíste mais ao longo da carreira? E onde achas que ainda podes melhorar?
Sempre fui muito rápido, bom no 1×1, mas não sabia os timings, a leitura de jogo. O momento certo de fintar, de passar, de fazer o sprint, o gerir o esforço. Quando era miúdo aos 70 minutos tinha uma cãibra porque tinha andado a correr o jogo todo sem gerir bem, agora raramente isso aconteceria. Estou muito mais maduro. Mas ainda posso melhorar mais a ler o jogo dentro dele. Actualmente não há assim tanta diferença física e táctica, os jogadores que se vão destacar são os que sabem posicionar e decidir melhor.

Quem são os teus ídolos de infância? Em quem te revias na tua posição (ou revês, caso ainda esteja em actividade)?
Cristiano Ronaldo e Quaresma. Gosto muito das trivelas, das letras. Para quem gosta de técnica e espetáculo, criatividade, olhava para o Quaresma, tal como o Neymar. Cada vez há menos jogadores assim, hoje vêem-se jogos de 90 minutos sem um drible, sem um passe de calcanhar. O futebol cada vez está mais robotizado, treinadores de formação de 5, 6, 7 anos mais preocupados tacticamente do que em fazer evoluir os jogadores tecnicamente.

Que treinador (ou treinadores) mais te marcou?
Tive treinadores muito bons. O Pedro Moreira no Torreense foi importante, aprendi a voltar a ler bem o jogo, a posicionar-me. Na formação o Luís Castro, muito exigente, boa pessoa mas ao mesmo tempo quando é para trabalhar é para trabalhar. Cresci muito defensivamente com ele, porque um extremo da formação do FC Porto nunca tem de defender, é atacar, fazer golos, correr para a frente. Ao chegar à equipa B tive de aprender a defender.

(Jogador do Torreense durante duas temporadas, o extremo contribuiu para o regresso do clube às competições profissionais.)

O que ainda esperas atingir na carreira?
Se fosse mais novo, como estou agora fisicamente, ainda iria jogar noutro tipo de campeonatos, não tenho dúvidas. As pessoas olham para o número, 32 anos, pensam que estou velho, mas recomendo que vejam um jogo meu para ver se acham que está assim tão mau (risos)! Concretizei agora o sonho de jogar em eliminatórias de uma competição europeia, mas ainda gostaria de participar ainda numa fase de liga, ainda é um sonho possível. Agora é continuar com a minha performance, a sentir-me bem, e claro que a questão monetária também é importante.

Foste colega de grandes craques, tanto em clubes como nas selecções jovens. Quem foram os melhores, aqueles que mais te surpreenderam e os que esperavas que tivessem chegado mais longe?
O que mais surpreendeu talvez tenha sido o Bruno Fernandes, porque fez a formação no Boavista e depois foi para Itália, nunca passou por um clube com a dimensão na formação que têm FC Porto, Benfica ou Sporting, e hoje é o jogador que é. Bernardo Silva também atingiu um nível de topo. Quem esperava que tivesse chegado mais longe… Não é que tenha feito uma carreira má, fez uma carreira muito boa, mas para quem treinou diariamente com o Gonçalo Paciência… Ele tinha uma qualidade inacreditável, tecnicamente muito evoluído e depois também com um grande arcaboiço físico. Teve muito azar com as lesões, não tenho dúvidas de que teria sido um grande nome da história do futebol português se não fosse isso. A criatividade cada vez há menos e ele tinha em exagero, mesmo com o porte físico. Mas ainda vai a tempo por exemplo de poder voltar à selecção, se continuar com o nível que está a mostrar agora.

Sempre te sentiste mais português, ou poderias ter representado França se tivesse havido essa oportunidade?
Houve essa oportunidade, cheguei a receber uma sondagem por parte da Federação francesa, mas sem dúvida que sou português. Nasci lá porque os meus pais trabalhavam lá, mas nunca houve nenhum tipo de dúvida. Até chorei com a mão do Abel Xavier no Euro 2000!

Hugo Oliveira: “Sempre tive o instinto de estar onde a bola vai pingar”

(Hugo Oliveira entrou na nova época a faturar depois de na temporada anterior ter feito 6 golos.)

Hugo Oliveira foi o primeiro português a marcar nas competições europeias na nova temporada e fê-lo logo na prova que todos querem jogar, abrindo caminho, na semana passada, ao triunfo do Ararat-Armenia na receção ao Riga, por 2-0, na 1ª mão da 1ª Pré-Eliminatória de acesso à fase final da Liga dos Campeões – a 2ª mão joga-se já esta terça-feira.
Natural de Santa Maria da Feira, o lateral direito, que curiosamente foi médio no jogo em cima referido, cumpre a segunda temporada no Ararat-Armenia, onde é orientado por Tulipa, e há poucos meses sagrou-se Campeão Nacional, ele que no nosso País, a nível sénior, destacou-se no Vizela e passou ainda por Oliveirense e Felgueiras.
Atualmente com 24 anos, Hugo Oliveira, que cumpriu grande parte da sua formação no FC Porto, destaca a sua grande ligação a Tulipa, com quem já tinha trabalhado nos “dragões” e também no Vizela, e assume que o seu objetivo é chegar ao top-5 de Ligas Europeias pois é um eterno insatisfeito e as suas ambições foram sempre altas:

À Bola pelo Mundo/Conversas Redondas: Alguma vez na vida pensavas ouvir/ler na tua descrição “primeiro português a marcar nas competições europeias na época”?
Hugo Oliveira: Sinceramente, nem fazia a mínima ideia que tinha sido o primeiro, não costumo estar atento a essas coisas. Mas não, nunca pensei. É a primeira vez que estou a jogar esta competição, e o clube também. Claro que entramos sempre com a mentalidade de querer jogar e ganhar, e o que vier a mais vem por acréscimo.

A época passada foi a mais concretizadora da tua carreira, e esta já começa bem encaminhada. A que se devem estes números?
O mister Tulipa projetou-me mais ofensivamente. Por acaso até costumo ser eu a bater os cantos, mas neste jogo o extremo estava mais perto, foi ele bater e eu fiquei ali na posição dele, e depois é um bocado aquele bichinho, o instinto de “a bola pode pingar aqui, tenho de estar pronto para aparecer e fazer”. É ter essa capacidade de aparecer, de não dar nenhum lance como perdido e estar pronto para a eventualidade. Nem sempre fui lateral, na formação comecei a médio, depois também fui ponta e aqui agora até tenho jogado a médio, e sempre tive esse bichinho dentro de mim, é uma característica que tenho, instinto onde a bola vai pingar. É muito da ocasião, do acreditar.

Quais os objectivos para esta época? Internos e também na Europa?
Na Europa, o principal objectivo é alcançar uma fase de grupos, pelo menos da Conference. Mas enquanto estivermos na Champions, vamos tentar chegar o mais longe possível, claro. Se ganharmos agora este jogo já damos um passo muito grande, ficamos muito mais perto de conseguir lá chegar. Não é fácil, é um caminho muito longo, e não vamos pensar muito nisso por agora. Se conseguirmos vai ajudar muito o clube, e mesmo individualmente pode ser muito positivo para nós. Internamente, é fazer melhor que o ano passado, lutar para ser campeões novamente e se possível ir atrás da Taça, porque perdemos nas meias da Taça e também a Supertaça contra o Noah. Agora queremos a “vingança”! Chegaram jogadores com grande qualidade, à medida que vai passando o tempo vamo-nos conhecendo melhor e o plantel parece ter potencial para ser melhor que o do ano passado.

(Em 4 anos de ligação ao Vizela, o lateral fez 19 jogos pela equipa principal, 16 deles na I Liga.)

Qual é a sensação de ser campeão nacional?
É sempre uma sensação maravilhosa, é o resultado do teu trabalho durante uma época muito longa, muito dura, com muita coisa contra nós, muitas pedras no caminho. Chego ao final da época e as pessoas não têm um por cento de ideia do que se passa nos bastidores.

Não houve piadas no balneário por seres quase o melhor marcador da equipa?
Isso há sempre, chamavam-me “o artilheiro” (risos)! Mesmo o mister brincava com isso, às vezes quando eu não jogava e ficava assim de cara mais fechada, porque um jogador quer sempre jogar, ele dizia-me “Tens 6 ou 7 golos, és o melhor marcador da equipa, tens é de estar feliz”, e um gajo ali lixado (risos)!

Tens contrato por quanto tempo?
Esta época e a próxima.

Como surgiu a possibilidade de ir para a Arménia? Jogar no estrangeiro era um objectivo que tinhas?
Sempre pensei nessa possibilidade, mas não sabia que seria assim tão cedo, foi muito repentino. A situação em Portugal fez com que tivesse de sair, o mister Tulipa já tinha sido meu treinador em Vizela e também na formação do FC Porto, queria contar comigo, confia em mim, temos uma relação boa, gosto muito dele, e ligou-me, vim para cá e estou-lhe muito agradecido. Para o meu crescimento a nível de futebol e até mais a nível pessoal, foi muito importante.

Como foi a adaptação? Integraste-te rapidamente? Tanta gente a falar português também ajuda muito…
Ajuda sempre. Tínhamos vários portugueses, tanto no plantel como no staff. Mas até demorou mais do que eu estava à espera, porque as pessoas aqui são muito conservadoras, um bocadinho mais fechadas, os costumes muito diferentes. Mas uma pessoa quando quer adapta-se sempre, eu também estava focado mais na parte do futebol, queria que as coisas corressem bem e fiz por isso.

(O FC Porto foi a casa do futebolista entre 2011 e 2019.)

Como é ser treinado por um português? Deixa-te mais confortável ou dá-te mais pressão? Nem sempre foste titular, mesmo a marcar tantos golos…
Nós temos uma relação muito boa, mesmo no campo pessoal, é uma pessoa que me ajuda muito. Em campo, em todos os momentos do jogo não se pode facilitar, e o mister sabe que eu vou dar sempre a vida por ele, como eu sei que ele dá por mim. Transmite conforto, tranquilidade, sabemos que podemos sempre contar com ele. Mesmo quando me dá duras, sei que só me quer ajudar. O nosso outro lateral-direito também tem boa capacidade, foi gestão e decisões dele e eu só tenho de respeitar. Sei que sempre que fui chamado fiz o meu trabalho, e se calhar até podia ter feito mais nalguns jogos…

Como é viver aí? As pessoas, a comunicação…
A Arménia é o primeiro país assumidamente cristão e eles ainda são muito conservadores, vêem a mulher como mais inferior, são muito tradicionais, qualquer coisa que seja de fora estranham muito. Também se calhar por terem estado muito tempo em guerra com países vizinhos, fecharam-se muito, é muito uma mentalidade de serem eles contra o mundo. E são muito patriotas. Nós vivemos em Yerevan mas a zona onde fica o clube é uma periferia a 10 minutos. No centro de Yerevan há mais gente a falar inglês, mas noutros sítios falam muito pouco, o que dificulta um bocadinho. Eles têm uma ligação muito forte com a Rússia, então na escola aprenderam mais russo e não têm inglês. No clube, alguns colegas falam, outros é mais arranhado, mas conseguimos comunicar.

Já falas alguma coisa de arménio?
Impossível (risos), mesmo muito difícil! Se vires o alfabeto que eles têm até te assustas. Só sei uma ou duas palavras mesmo básicas, tipo bom dia, boa tarde.

E em termos de comida, clima…?
A comida foi uma coisa que me surpreendeu. Pensava que podia ser muito diferente, mas eles têm restaurantes muitos bons e até já comi comida aqui que se calhar nunca comi em Portugal. Normalmente opto mais por coisas mais simples, já provei uma que é basicamente um churrasco, com porco, frango, e gosto muito. O clima é muito diferente do português, em tempos de calor faz imenso calor, e tem a particularidade de ser um país com altitude, o que causa dificuldade em respirar em certos sítios, toda a gente ao início sente isso. Depois acabamos por nos habituar. E no inverno é muito frio, são extremos. O campeonato também pára por causa disso. Fazemos uma segunda pré-época, muito longa, o ano passado durou um mês e meio. É muito estranho ver os outros campeonatos a decorrer e nós parados, ficar quase 3 meses sem ter um jogo oficial… Quebra um bocado o ritmo, mas habituamo-nos sempre, eu pelo menos sou assim. Quando voltámos tivemos 2 ou 3 jogos que não correram muito bem, mas foi uma questão de engatar outra vez.

(Na temporada 19/20, o jogador de Santa Maria da Feira representou o Aves, alinhando pelos Juniroes e pelos Sub-23.)

E o futebol, surpreendeu-te de alguma forma?
Não ia com grande expectativa, sabia que não era igual ao de Portugal, mas também encontrei equipas com qualidade. Acho que nós conseguimos fazer com que as coisas parecessem fáceis, mas também tivemos as nossas dificuldades, foi uma época longa com muitos desafios pelo meio, mas fizemos o nosso trabalho e estivemos bem.

Tens algumas histórias curiosas que já tenhas vivido aí?
Nós treinamos na academia da federação e, para mim, era impensável treinar no mesmo campo de treinos do rival. E às vezes são 3 ou 4 equipas a treinar no mesmo sítio quase ao mesmo tempo. Às vezes também partilhamos campo, jogamos fora mas no mesmo estádio do que em casa. Estar a treinar e no campo ao lado estar o Pyunik, é como se fosse um FC Porto vs Benfica ou Sporting… Aqui ainda não se vive muito futebol, a cultura ainda está a crescer, ainda não há essas condições para os clubes. O Noah agora fez um centro de estágio, está com um projecto bom e isso vai começar a despertar alguma coisa para os outros clubes, que vão ter de seguir esse exemplo. O futebol não é o desporto que as pessoas acompanham mais aqui. São mais de desportos individuais, luta, MMA, boxe, por aí.

És de Santa Maria da Feira mas fizeste praticamente toda a formação na órbita do FC Porto. Como se recebe a notícia, ao chegar aos juniores, que já não contas e tens de procurar outro clube?
Nós já sabemos que nesses clubes há sempre muitas opções, escolhas que têm de ser feitas, não podem ficar todos. Eles até disseram que queriam ficar comigo, viam algum potencial, mas tinham outros jogadores em que estavam a apostar e dispensaram-me. Tive de me refugiar nos meus sentimentos e dar uma resposta por cima. Custou-me muito, nunca é fácil sair da nossa casa, do clube que nós amamos, mas temos de ir à luta e ir para a frente.

Entretanto vais para o Aves mas só fazes um ano…
Tinha sido campeão da Liga Revelação na época anterior, era o meu primeiro ano de júnior e a meio da época subi aos sub-23, com o mister Leandro, e fiz vários jogos numa Liga Revelação que era muito competitiva, mas o clube deu falência no fim dessa época e fui obrigado a procurar outra solução.

E porque é que te mudas para o Vizela depois de uma época na Oliveirense, onde até te estreaste na primeira equipa ainda em idade de júnior?
Não tinha contrato e entretanto apareceu o Vizela com um bom projecto de sub-23 e possibilidade de chegar à equipa A, por isso decidi aceitar.

(Em Julho de 2024, o lateral renovou com o Vizela por mais 3 temporadas, mas acabou por sair volvido 1 ano.)

Acabas por te estrear na I Liga logo na primeira jornada, e em Alvalade! O que recordas desse dia?
Foi numa altura em que o futebol ainda estava a retomar do COVID, o estádio estava com um terço da lotação, mas jogar num estádio daquela dimensão, parecia que estava cheio, foi um nervosismo, uma sensação incrível. Percebi que estava a fazer as coisas bem, e ao mesmo tempo ainda tinha muito por alcançar. Foi o primeiro jogo do Vizela na I Liga depois de muitos anos, perdemos [3-0] mas saímos com o sentimento de que íamos fazer coisas boas nessa época. As pessoas a falarem comigo disso, que me viram na televisão, dá logo uma sensação de “ok, posso conseguir isto, estou aqui mas ainda tenho tanto pela frente, não é suficiente”. No fundo, como fiz a formação toda no FC Porto, sempre cresci com as ambições muito altas.

Na segunda época jogas acima de tudo nos sub-23 mas na terceira fazes vários jogos na equipa principal. Porque é que acabas por ser depois emprestado ao Felgueiras, e qual o motivo de quase não teres jogado lá?
Foram decisões em que não tive controlo, o Vizela tinha outras coisas em mente naquela altura e surgiu a possibilidade de ser emprestado. Quando cheguei ao Felgueiras já cheguei com a época a decorrer e o mister Agostinho [Bento] já tinha uma equipa-base, com jogadores da sua confiança, e também tive ali uma fase que não foi a melhor a nível pessoal e as coisas acabaram por não fluir. Entretanto lesionei-me, estive um mês e meio ou 2 parado e voltei a Vizela em Janeiro, mas já não pude jogar por causa de uma lei da FIFA relacionada com os minutos que já tinha feito por 2 equipas nessa época.

Onde gostaste mais de jogar até agora? Que futebol se adequou mais às tuas características?
Foi mais em Vizela, quando o mister Tulipa assumiu o comando, primeiro nos sub-23 e depois da equipa principal. Tínhamos uma equipa brilhante, com jogadores incríveis, uma ideia de jogo muito boa, uma equipa que sabia o que estava a fazer. A dada altura da época começámos até a acreditar que podíamos ter outras ambições, como chegar à Conference League.

Como te descreves enquanto jogador?
Considero-me um jogador inteligente, penso bem o jogo, tomo boas decisões. Sou rápido, ofensivo para um lateral e sinto que tenho pormenores técnicos bons.

(Na última época, Hugo Oliveira fez uma assistência e 6 golos em 28 jogos que contribuíram para o título do Ararat-Armenia.)

Qual o aspecto em que consideras que evoluíste mais ao longo da carreira? E onde achas que ainda podes melhorar?
O pensamento do jogo, perceber o que o jogo está a precisar, quando acelerar ou pausar o ritmo, tem sido o que tenho vindo a aprender mais. Estamos sempre a melhorar todos os dias, mas talvez os aspectos defensivos seja onde ainda tenho muito por progredir. E depois, saber quando cruzar ou rematar ou fazer um passe atrasado, decisões mínimas mas que no jogo fazem toda a diferença.

Quem são os teus ídolos de infância? Em quem te revias/revês na tua posição?
Na infância, até porque como não jogava ainda a lateral, a referência foi sempre o Cristiano [Ronaldo], o Messi, via muitos jogos deles. O Brahimi, também gostava muito. Gostava do Guarín, era um jogador que se destacava, também o Fernando, que eram médios como eu. Depois, uma referência como lateral-direito foi o Dani Alves, que é uma lenda, um jogador de outro mundo. Agora gosto muito do Reece James, é de classe mundial, sem palavras. Se não fossem as lesões…

Que treinador mais te marcou?
O Tulipa é realmente um treinador que me fez crescer muito, desde a formação do FC Porto, Vizela, sub-23, equipa A, e agora trouxe-me para aqui. Vai sempre fazer parte da minha vida. Nos miúdos, tive o mister Baptista na formação, que agora está pelas Arábias, foi o meu primeiro treinador no FC Porto, gosto muito dele. Também gostei de trabalhar com o Nuno Braga e se calhar estou a ser injusto e a esquecer-me de outros.

O que ainda esperas atingir na carreira?
Eu sou um puro insatisfeito, cresci sempre com ambições muito altas. Sonho sempre em chegar ao mais alto nível de rendimento, às top-5, é sempre o bichinho que está dentro de mim. Fazendo boas épocas, não diria daqui directamente mas acho que ainda é possível chegar a um nível mais elevado. É um sonho de miúdo jogar a Champions, é isso que nos move, esse querer mais, atingir mais, é isso que nos faz acordar todos os dias, num país a quase 5 mil quilómetros de distância do nosso, para me voltar a erguer e ir atrás do que sempre sonhei. São metas ainda um bocado distantes, mas passo a passo ainda podem ser palpáveis.

Portugal: glória europeia a dobrar e o topo em África

(Nuno Mendes, João Neves, Vitinha, Gonçalo Ramos, João Cancelo, João Mário, Filipe Relvas, Cristiano Ronaldo e João Félix foram alguns dos portugueses que foram Campeões Nacionais.)

Concluída oficialmente a temporada 2025/26, e quando se avista já o recomeço das competições europeias, é hora de fazer o habitual balanço de troféus conquistados por jogadores e treinadores portugueses pelo mundo – e, como é habitual, foram desde campeonatos, Taças e Supertaças internas até duas competições continentais, no caso na Europa e em África, a exemplo do que havia acontecido na época transacta.

Desde logo, realce para a armada lusa do Paris Saint-Germain, que desta vez não ganhou todos os troféus internos (escapou apenas a Taça), mas conseguiu o tão desejado bicampeonato europeu, ao qual juntou ainda a Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. Para tal, contou mais uma vez com o contributo efectivo do quarteto composto por Nuno Mendes, João Neves, Vitinha e Gonçalo Ramos – este com menos preponderância do que na época anterior e que entretanto deu por encerrada a passagem por Paris, tendo já sido oficializado como reforço do AC Milan, que na nova temporada será treinado pelo compatriota Rúben Amorim.

(Na despedida do Manchester City, Bernardo Silva conquistou a Taça de Inglaterra e a Taça da Liga.)

Nas restantes ligas do top-5 europeu, houve festa lusa em 2: se Raphael Guerreiro repetiu a conquista da Bundesliga (desta feita juntamente com o jovem David Daiber), à qual juntou também a Taça e a Supertaça, já João Cancelo celebrou pelo Barcelona após chegar a meio da época, tornando-se no primeiro futebolista da História a ser campeão em 4 grandes campeonatos da Europa (Itália, Inglaterra, Alemanha e Espanha, além de Portugal), com Gonçalo Guedes a revelar-se também determinante para a conquista da Taça do Rei por parte da Real Sociedad. Em Inglaterra, o duo luso do Manchester City, composto por Matheus Nunes e Bernardo Silva, teve de se contentar com a Taça e Taça da Liga – Rúben Dias não foi utilizado em nenhuma das competições, numa época onde foi muito fustigado por lesões –, não havendo desta vez qualquer português a festejar troféus em Itália.

Nos demais campeonatos da Europa, o destaque natural vai para a dobradinha do Universitatea Craiova na Roménia – a sua terceira de sempre e a primeira desde 90/91 –, sob o comando de Filipe Coelho e com Samuel Teles a ter papel activo. Realce também para a armada lusa do Ararat-Armenia, comandada por Tulipa (Bruno Pinto, Hugo Oliveira, João Queirós e Rodrigo Ramos, que saiu a meio da época), campeã da Arménia pela primeira vez em seis anos – o Noah, com Gonçalo Silva, David Sualehe e Hélder Ferreira (Gonçalo Gregório, devido a lesão grave sofrida logo no início da temporada, falhou praticamente toda a campanha), acabou desta feita por conquistar “apenas” a Taça e a Supertaça.

(Filipe Coelho guiou a Universitatea Craiova à conquista da dobradinha na Roménia.)

Contratado na fase decisiva da época, Vítor Campelos acabou a celebrar o título esloveno pelo Celje, o mesmo acontecendo no Chipre, mas com Ricardo Sá Pinto a guiar o Pafos à conquista da Taça, num plantel integrado pelos compatriotas Pêpê Rodrigues, Domingos Quina, Dani Silva e Alexandre Brito. Na Grécia houve igualmente vários portugueses a fazer a festa: Filipe Relvas e João Mário sagraram-se campeões pelo AEK e Costinha, Chiquinho, Diogo Nascimento, Gelson Martins e Podence ficaram com a Taça ao serviço do Olympiacos.

Em mais 7 países, houve portugueses a celebrar em mais do que uma competição – não entra nestas contas o técnico João Sacramento, demitido numa fase ainda precoce da temporada, mas ainda assim com contributo dado para a dobradinha do LASK Linz na Áustria. Na Albânia, Afonso Rodrigues sagrou-se campeão pelo Egnatia, com André Teixeira e Tiago Nani a conquistarem a Taça pelo segundo ano consecutivo, juntando-lhes agora também a Supertaça; na Bulgária, o longo reinado do Ludogorets foi finalmente interrompido, no caso pelo Levski de Aldair Neves, com Bruno Jordão a capitanear o CSKA Sofia rumo à conquista da primeira Taça em 5 anos; na Croácia, o ainda adolescente Cardoso Varela foi opção regular na dobradinha do Dinamo Zagreb; na Escócia, o Celtic de Paulo Bernardo (e Jota, que falhou toda a temporada devido a lesão) derrubou o conto de fadas do Hearts de Cláudio Braga ao ficar mais uma vez com o campeonato (e a Taça); na Geórgia, a dupla de centrais composta por Tiago Ilori e Pedro Mendes venceu Taça e Supertaça; em Israel, Hélder Lopes celebrou o triunfo no campeonato e na Supertaça pelo Hapoel Beer Sheva, com Miguel Silva a conquistar a Taça da Liga pelo Beitar; e na Sérvia, Tomás Handel celebrou a conquista da dobradinha na primeira temporada no histórico Crvena Zvezda.

(Miguel Cardoso fez história no Continente Africano: venceu a Liga dos Campeões pelo Mamelodi Sundowns.)

Na Bélgica, Carlos Forbs foi peça fulcral no título do Club Brugge, tal como Luís Mata e principalmente Jorginho no Kairat (Cazaquistão). Apesar da passagem-relâmpago pelo Kauno Zalgiris, Jair Tavares festejou o título lituano, tal como Joel Pereira e João Moutinho na Polónia, com o Lech Poznan. Sem direito a campeonato, mas ainda assim com motivos para festejar, ficaram Tiago Baptista na Estónia, Miguel Pires na Macedónia do Norte, Paulo Mendes no País de Gales, Alexandre Penetra nos Países Baixos e Gedson Fernandes na Rússia – todos venceram a Taça do respetivo país – e Kevin Santos, que conquistou a Supertaça da República da Irlanda.

No que respeita a campeonatos semi-profissionais, a grande surpresa chegou do Luxemburgo, onde o Atert Bissen, treinado por Vítor Pereira e capitaneado por Adriel Santos (e ainda com Brandon Rosa e Mamadi Djaló no plantel), conquistou o título na época imediatamente a seguir a subir ao escalão principal – a Taça seguiu para o Differdange, treinado por Oedro Silva durante grande parte da época e com Bruno Reis, Rafa Pinto, Edgar Pacheco, Manuel Namora e Pedro Costa no plantel. Em Malta, Daniel Portela guiou o Floriana ao título nacional (com Chico Teixeira e Rui Areias no plantel), enquanto Diogo Tavares e Evandro Gomes venceram a Taça pelo Valletta; e em Andorra, o Atlètic d’Escaldes celebrou a conquista da Taça e da Supertaça muito devido aos golos de Rodrigo Piloto.

Fora da Europa, o destaque óbvio recai no título do Al Nassr, o primeiro de Cristiano Ronaldo – e João Félix – na Arábia Saudita, sob o comando de Jorge Jesus: para o Al Hilal de Rúben Neves “sobrou” a Taça. Também na Ásia, Rafael Rodrigues celebrou a dobradinha nos Emirados Árabes Unidos pelo Al Ain, com o Al Wahda, então orientado por Dimas e com Guga e Bernardo Folha no plantel a festejar a conquista da Taça da Liga, enquanto José Morais, que iniciou a época no emblema anteriormente mencionado, viria a vencer a Supertaça pelo Al Sharjah.

(Paulinho viveu mais uma grande época no Toluca: a nível interno venceu o Torneo Apertura e a Supertaça; e a nível Continental, ganhou a Liga dos Campeões e a Supertaça da CONCACAF.)

No Qatar, André Amaro e Tiago Silva venceram a Taça pelo Al Rayyan (Artur Jorge fez a maior parte da campanha), tal como André Jasmins em Omã, no banco do Al Nahda, e Pedro Martins repetiu a vitória na Taça do Emir ao comando do Al Gharafa. Nandinho, por seu lado, conquistou a dobradinha no Bahrain pelo Al Muharraq, o mesmo acontecendo com a dupla lusa do Lion City Sailors, composta por Diogo Costa e Rui Pires; com Nené, nos primeiros meses ao serviço do Johor (Malásia); e também por João Gamboa na Coreia do Sul (Jeonbuk), enquanto Guga Rodrigues venceu a Taça da China pelo Beijing Guoan antes de rumar à Arábia Saudita, já não estando presente no plantel na conquista da Supertaça – ao contrário do então recém-contratado Guilherme Ramos.

Em África, a armada lusa composta por Jorge Pereira, Pedro Aparício e Benny conquistou a Supertaça e novo título nacional angolano ao serviço do Petro de Luanda, posteriormente reforçado por Costinha e Pedro Pinto, enquanto Edy Maieco juntou a Taça ao seu palmarés pelos meses passados ao serviço do Wiliete. Anilsio Pereira conquistou a dobradinha em Moçambique, pelo UD Songo, com Nélson Santos a celebrar a Supertaça ao comando do Black Bulls e Pedro Gonçalves a sagrar-se campeão da Tanzânia pelo Young Africans, apesar de ter sido afastado do comando técnico a pouco mais de um mês do fim da época – quando seguia isolado no topo da tabela.

(Aldair foi Campeão na Bulgária, ajudando o Levski de Sófia a interromper a longa hegemonia do Ludogorets.)

Na América do Norte, Paulinho voltou a ser o nome em foco, vencendo o Torneio Apertura, do qual foi também o melhor marcador, e também a Supertaça do México. Já Kevin Santos também acabou a festejar o título nacional no Canadá, pelo Atlético Ottawa, num campeonato que decorre em calendário de ano civil – o extremo luso seguiria depois para a República da Irlanda.

No que respeita a divisões secundárias, como sempre, houve também vários portugueses com motivos para festejar. No Chipre, Mika Borges foi campeão pelo Nea Salamis e Márcio Meira e Mike Morais subiram em terceiro pelo Omonia29; na Croácia, Xavi Fernandes foi peça chave no título do Rudes, o mesmo acontecendo com Bruno Gama na Grécia (Kalamata); Frederico Duarte na Polónia (Wisla), com Paulinho a celebrar também no play-off (Wieczysta Krakow); Pedro Albino e Sérgio Ribeiro na Roménia (Corvinul), onde Fábio Vianna também festejou (Sepsi, segundo classificado); e João Baldé no East Kilbride, no caso após ser campeão do quarto escalão do futebol escocês. Em Itália, o Monza de Dany Mota garantiu a promoção após derrotar o Catanzaro de Gonçalo Esteves no play-off, tal como o Çorum de Pedrinho na Turquia e o Bolton de Rúben Rodrigues em Inglaterra – no caso, na League One; já na Ásia, Samuel Pedro festejou a promoção ao escalão principal dos Emirados Árabes Unidos.

(Hugo Oliveira foi um dos vários portugueses que se sagraram Campeões pelo Ararat-Armenia.)

Para terminar, falta falar das conquistas continentais – além do PSG, claro está. Se na Europa, Aston Villa e Crystal Palace não contaram com o contributo de nenhum português nas suas caminhadas triunfais na Liga Europa e Liga Conferência, o mesmo não se pode dizer do novo campeão africano: o Mamelodi Sundowns, orientado por Miguel Cardoso e com Nuno Santos e Miguel Reisinho no plantel, que venceu a final “portuguesa” frente ao FAR Rabat de Alexandre Santos. Já as finais da CONCACAF foram totalmente dominadas por… Paulinho, claro: o avançado internacional português conquistou a Liga dos Campeões, sendo ainda o melhor marcador da prova, e também a Supertaça continental.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Goleadores: Chermiti ganhou a corrida ao sprint

(Chermiti, Cláudio Braga, Miguel Pires e André Silva foram os portugueses que mais marcaram nos diversos Campeonatos Europeus em 25/26.)

Finda oficialmente a temporada 2025/26, depois de mais uma final da Liga dos Campeões a sorrir ao quarteto luso do Paris Saint-Germain, e quando já se fizeram os primeiros sorteios europeus para 2026/27, fazemos a já habitual análise dos números finais de época no que respeita a golos apontados por jogadores portugueses nos campeonatos europeus. Desta vez, o cenário foi ainda menos animador do que na pretérita temporada, com apenas 6 jogadores a alcançar ou superar a barreira dos 2 dígitos – 2 dos quais no mesmo campeonato.

É verdade: os 2 maiores goleadores portugueses na Europa nesta época actuaram ambos na Liga escocesa – e fizeram ambos a melhor época da carreira, pelo menos no que ao número de finalizações certeiras diz respeito. Cláudio Braga, que até acabou eleito Melhor Jogador da competição no que foi a sua primeira temporada de sempre num escalão principal, liderou essa corrida praticamente durante toda a temporada, mas seria ultrapassado na última jornada por Chermiti, autor de um hat-trick pelo Rangers que lhe elevou o pecúlio final para os 15 golos na prova (contra 14 do vice-campeão pelo Hearts) e que fez dele o maior goleador luso em campeonatos europeus em 2025/26.

(Carlos Forbs marcou 8 golos na Liga Belga, ajudando o Club Brugge a ser Campeão.)

Depois… só um jogador conseguiu passar dos 10 golos no seu campeonato – e nem sequer é avançado. Miguel Pires, que viria a terminar a temporada a celebrar a conquista da Taça da Macedónia do Norte ao serviço do Sileks, fez 11 tentos na primeira época na Liga para a qual se mudou após 4 temporadas no segundo escalão do futebol cipriota – e que acabaria por ser também a melhor da sua carreira.

Os outros 3 que alcançaram a dezena de tentos… pararam por aí. André Silva faturou em 10 ocasiões pelo Elche – melhor registo pessoal das últimas 4 épocas –, contribuindo decisivamente para a permanência na La Liga; Ricardo Matos apontou também 10 golos ao serviço do Arges, na Roménia; e Hélder Ferreira acabou igualmente com 10 tentos na Arménia, representando o Noah – uma palavra para Gonçalo Gregório, rei dos marcadores portugueses na Europa em 2024/25, que fez apenas 11 minutos na Liga arménia nesta temporada, tendo sofrido uma lesão muito grave logo na primeira jornada, pelo que não teve oportunidade para defender o seu “título” em 2025/26.

Logo abaixo dos 10 golos surgem 4 atletas, com destaque para Bruno Fernandes, capitão do Manchester United e eleito o Melhor Jogador da Premier League. Rafael Leão, numa temporada onde foi convertido a ponta-de-lança no AC Milan e que até começou bem, mas que viria a terminar de forma pouco feliz; Leonardo Rocha, que voltou mais uma vez a sofrer com a mudança para o Raków em Janeiro, quando foi chamado de volta do empréstimo ao Zaglebie Lubin, onde fizera 7 golos (no “clube-mãe”, a sair do banco nos minutos finais na esmagadora maioria das vezes, acabou por somar apenas 2); e Pedro Marques, no Chipre, pelo Apollon, compõem o ramalhete dos 9 tentos.

(Fábio Vieira fez 7 golos pelo Hamburgo na Bundesliga.)

Carlos Forbs marcou por 8 ocasiões na Bélgica, sagrando-se campeão pelo Club Brugge, com outros 4 jogadores a serem os melhores lusos nos respectivos campeonatos com 7 tentos – 2 deles médios: Fábio Vieira na Alemanha (Hamburg) e Tiago Dantas na Croácia (Rijeka). Diogo Almeida, no Azerbaijão (Imisli) e Lucas Ferreira, na Suíça (Luzern), completam o lote.

No que foi a sua época menos feliz em termos individuais, Gonçalo Ramos fez apenas 6 golos na Ligue 1 pelo PSG (12 no total da temporada), um a mais do que João Neves, o segundo melhor goleador português na prova. Berna Couto conseguiu os mesmos 6 tentos na Bulgária na primeira metade da época, pelo Spartak Varna, vendo o azar bater-lhe à porta com a mudança para o CSKA Sofia 1948 a meio da temporada – sofreu uma lesão grave logo aos 7 minutos da estreia, estando afastado dos relvados desde então.

Nos restantes campeonatos europeus com representação goleadora lusa minimamente relevante, Zé Gomes apontou 5 tentos na Albânia (Elbasani), tal como Gedson Fernandes na Rússia (Spartak Moscovo) e uma dupla de Silvas na Turquia: Jota e Rafa (que saiu para o Benfica no mercado de inverno). Nesta contabilização, recordamos, não se inclui o campeonato português: se assim fosse, Ricardo Horta, que apontou 14 golos na Liga pelo Braga, depois dos 11 em 2024/25, entraria diretamente para o pódio.

(Autor de 10 golos, Frederico Duarte teve um papel importante no regresso do Wisla Cracóvia ao topo do futebol polaco.)

É preciso lembrar também o caso específico dos goleadores portugueses em campeonatos semi-profissionais. Rodrigo Piloto somou 13 golos pelo Atlètic d’Escaldes, sendo o terceiro melhor marcador do campeonato de Andorra, enquanto Dinho festejou 10 tentos em nome próprio no Luxemburgo, ao serviço do Dudelange.

Alargando a análise às segundas divisões, o artilheiro-mor deixou “finalmente” de ser Marco Paixão: depois de vários anos a “reinar” na II Liga turca, o avançado de 41 anos mudou-se para o segundo escalão do futebol grego, mas não foi feliz no Athens Kallithea (13 jogos e apenas 1 golo, de grande penalidade), optando inclusivamente por dar por terminada a carreira após rescindir a meio da temporada. O “trono” passou assim a ser ocupado por uma dupla campeã, com 10 golos: Frederico Duarte, peça fulcral no título do Wisla Cracovia – e consequente subida ao escalão principal do futebol polaco –, e Sérgio Ribeiro, que desempenhou igualmente um papel decisivo no título de campeão e promoção do Corvinul, na Roménia.

Menção honrosa também para Rafael Lopes, que em Janeiro, depois de somar 6 tentos pelo Wieczysta Krakow no segundo escalão da Polónia, decidiu regressar ao Anorthosis, protagonizando exactamente o caminho inverso ao que havia feito em 2024/25. No Chipre, marcaria mais 4 golos, acabando assim a temporada com 10 tentos.

(Rodrigo Piloto marcou 13 vezes pelo Atlètic d’Escaldes na I Liga de Andorra.)

Fora do continente europeu, e tendo em conta apenas os campeonatos que se disputam em época desportiva “normal”, Cristiano Ronaldo recuperou o posto de rei dos goleadores portugueses, perdido na época anterior para Paulinho. O CR7 apontou 28 golos na Liga da Arábia Saudita, que finalmente acabou a conquistar (ainda que não tenha acabado como artilheiro-mor da prova pela primeira vez numa temporada completa), com o colega de Al Nassr João Félix a fazer 20 tentos na época de estreia fora da Europa – e Rúben Neves (Al Hilal) a somar 11, apesar de actuar em zonas bem mais recuadas do campo.

Depois dos 27 golos na época de estreia no campeonato mexicano, Paulinho reduziu o pecúlio em 2025/26 para 21 finalizações certeiras ao serviço do Toluca. Zé Valente, com 10 tentos no PSIM Yogyakarta (Indonésia), foi o único a passar da dezena de golos nos restantes campeonatos com representação lusa relevante nas listas de goleadores; Aylton Boa Morte (Khorfakkan, dos Emirados Árabes Unidos) e Benny (Petro de Luanda, de Angola), com 7, e Diogo Amaro (Al Sailiya, do Qatar), com 5, foram os restantes a ultrapassar ou alcançar a mão-cheia.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Ricardinho: “Vir para a Roménia foi a melhor decisão da minha carreira”

(Ricardinho cumpre a segunda época no Petrolul.)

A cumprir a oitava temporada consecutiva na Roménia, o que lhe permite ser atualmente o português com mais anos no País, Ricardinho há muito que é considerado de forma unânime um dos melhores laterais direitos da I Liga, mesmo nunca tendo atuado por equipas que lutam pela conquista de títulos.
Natural de Barcelos, o futebolista cumpriu praticamente toda a sua formação no Gil Vicente, por quem ainda atuou no nosso principal escalão antes de se afirmar em definitivo já na II Liga, e em 2018 mudou-se para a Roménia, cumprindo agora a segunda temporada no Petrolul depois de ter representado o Voluntari durante 6 anos.
Atualmente com 31 anos, Ricardinho, que na estreia como sénior foi emprestado ao Vilaverdense, que então disputava o CNS, assume nesta entrevista que tem o sonho de regressar ao “seu” Gil Vicente, e confessa que um dos seus objetivos é atingir a marca de 500 jogos como profissional:

À Bola pelo Mundo/Conversas Redondas: Estás na oitava temporada na Roménia, és o português há mais anos no país, com quase 260 jogos, e continuas a ser essencial no Petrolul, até com golos decisivos!
Ricardinho: Tenho uma curiosidade: marquei em todas as épocas desde que estou aqui e, mesmo não querendo nem sendo essa a minha função, a nível pessoal já estava a sentir um bocadinho de pressão por ainda não ter nenhum golo, no que provavelmente será a minha última época na Roménia. Subo sempre nos cantos mas a bola não vinha ter comigo e já estava um bocadinho a entrar em stress. Ainda por cima, este golo foi ao minuto 92 e decidi o jogo [1-0 ao Unirea Slobozia]. Até mesmo quem tenha visto o meu festejo entende que tem um bocadinho de explosão, além de dar uma vitória muito importante à equipa, queria mesmo marcar um golo.

Sempre tiveste essa apetência para ir à área contrária nas bolas paradas?
Na primeira época, a primeira vez que fui foi de forma involuntária, um colega estava a receber assistência e eu perguntei ao treinador se podia subir e ele disse que sim. E logo nesse primeiro canto acabo por fazer golo! Acabei essa época com 5 golos, e fiz 2 ou 3 em cantos. Daí para cá tornou-se habitual, os vários treinadores que já tive aqui já sabem que posso sempre marcar nesses lances.

Disseste que provavelmente esta será a tua última época na Roménia. Porquê? E já tens algum destino em vista?
Ainda não posso dizer a 100 por cento que será assim, porque o futebol é sempre muito incerto. Tenho proposta de renovação, mas a minha esposa está em Portugal, como esteve sempre nestes 8 anos, e já se está a tornar um bocadinho complicado de gerir a vida familiar. Queremos também ter um filhote e encaminhar a vida em Portugal, a minha ideia é voltar. Vamos ver o que vai surgir no fim da época.

(Antes de emigrar, o barcelense esteve 4 temporadas na equipa principal do Gil Vicente.)

Os objectivos do Petrolul para esta época passavam acima de tudo pela permanência, ou era suposto terem lutado por algo mais? A Taça, por exemplo?
A Taça não era um grande objectivo, pelo menos tendo em conta o que aconteceu nos nossos jogos. Rodámos muito a equipa, a programação televisiva não foi favorável, porque nos obrigou a ter sempre jogo de 3 em 3 dias, creio que um até foi logo 2 dias depois de outro, mais as viagens… O Petrolul é um clube histórico, com uma massa associativa que torna muito bonito o ambiente a jogar em casa, a cidade fica muito bonita em dias de jogo, mas teve muitos problemas financeiros há uns anos e agora está a reestruturar-se e a preparar-se para coisas maiores. Por agora o objectivo tem de passar sempre pela manutenção, não há que esconder isso. Até temos uma boa equipa, mas ainda falta muita coisa para pensar noutros patamares.

Como surgiu a possibilidade de ires para a Roménia, naquele verão de 2018? Alguma vez te passou pela cabeça que poderias ficar tanto tempo?
Honestamente não esperava. Saí do Gil Vicente com 24 anos, era capitão, mas quem me conhece sabe que eu estava sempre a dizer, ali a partir dos 22, 23 anos, que tinha de jogar no estrangeiro, ter essa experiência de ir para fora, sentir como é ser estrangeiro. O que pensava na altura, e acho que agora continua igual, era que em Portugal se valoriza demasiado os estrangeiros perante a qualidade que temos nos jogadores portugueses. Mas o objectivo era ficar 2 ou 3 anos. Na primeira época fiz um ano extraordinário, e depois no segundo ano, que era o último de contrato com o Voluntari, tive uma ruptura de ligamentos, no cruzado anterior. Essa época acabou em Agosto para mim. Foi um pontapé no estômago, porque na altura já pensava noutros patamares, depois da primeira época que fiz aqui. Quando voltei estava sem contrato, foi na altura do COVID, e depois até acabei por renovar mais 2 anos e no fim desse contrato ficámos em quarto e fomos à final da Taça, fui eleito o melhor lateral-direito do campeonato e voltei a renovar… Foi uma sucessão de acontecimentos e acabei por ir ficando. Gosto da forma como me tratam aqui, como me valorizam e reconhecem o meu futebol.

Adaptaste-te rapidamente ou nem por isso? Hoje já falas romeno, de certeza!
Na altura logo quando cheguei custou, não tenho vergonha nenhuma de dizer, porque só falava português, inglês era muito pouco. Nos primeiros 2 meses foi um colega, central brasileiro [Wallace da Silva] que era casado com uma romena, que me ajudou bastante, mas depois foi embora e pensei “Como é que me vou safar agora?” Porque eu sou muito expansivo, gosto de conversar, e sabia que para me adaptar totalmente tinha de saber falar romeno. Nesses 2 meses aprendi muita coisa, tinha um caderno e aplicações no telemóvel e estudava todos os dias, romeno e inglês. Ao fim de 5, 6 meses já ia às conferências e dava entrevistas em romeno, e hoje estou completamente à vontade. Depois de aprender foi mais fácil do que pensava.

(Em 6 temporadas no Voluntari, o futebolista luso marcou 12 golos, 5 deles na época de estreia – 18/19.)

Com tantos anos de futebol romeno, nunca esteve em cima da mesa naturalizares-te, como fez o Camora?
É curiosa essa pergunta, porque existe uma espécie de conspiração nos últimos 3, 4 anos: sempre que vou falar com jornalistas, em conferências ou flash interviews, perguntam-me isso, e a minha resposta é sempre: sinto-me muito bem aqui, as pessoas gostam muito de mim e não diria que não, mas gostava de sentir essa vontade era da parte do selecionador e da Federação romena. Para a minha carreira era muito bom e era uma forma de agradecimento pela maneira como me têm tratado. Mas até agora não aconteceu, e não ficarei com mágoa nenhuma se não vier a acontecer.

Como é viver aí? O clima, a comida, as pessoas, a comunicação…
O clima é bastante diferente do português, mais seco. No verão chega aos 38 graus, e no inverno, em Barcelos, de onde eu sou, é chuva todos os dias durante 3 meses; aqui é raro chover, é sempre neve. No máximo chove 2 dias por ano, mas é um frio… Já joguei com -18 graus, há momentos em que não sentes o nariz, as orelhas… Por exemplo de ontem para hoje foram 30 horas seguidas a nevar.
Em relação às pessoas, sei que há muitos portugueses que têm uma opinião diferente da minha, mas todos os que têm jogado aqui comigo e mesmo só como adversários acabam por achar o mesmo que eu: os romenos gostam muito de ajudar. Mas também são 8 ou 80, ou gostam de ti ou não gostam, não há cá rodeios. Eu fui muito bem acolhido, ao início quando estava a aprender a língua cometia muitos erros na gramática, como é normal, mas foram os próprios colegas romenos que me ajudaram e incentivaram a aprender. Mesmo quando ia ao restaurante ou ao supermercado, as pessoas tentavam sempre ajudar.
A comida é mais ou menos parecido com a nossa, não senti dificuldade nesse aspecto. Eles têm pratos típicos, gostam muito de porco, mas é mais à imagem de Itália, pizzas, massas e assim. Come-se muito bem aqui também. Mas claro que Portugal é Portugal, a comida portuguesa é mesmo muito boa!

E em termos de futebol? Surpreendeu-te de alguma forma, ou foi ao encontro do que esperavas?
Naquela altura não tinha o conhecimento que as pessoas conseguem ter hoje. A nível de jogo, é mais físico que o português, não é tão táctico, qualquer treinador só o ouves dizer “joga para a frente”, a posse de bola ou o bascular o jogo são tratados de forma diferente. O jogo fica muito partido muito rapidamente, se for preciso dás por ti em 10 minutos a ver 3 ou 4 contra-ataques para cada equipa. Acredito que muitos estrangeiros não se conseguem adaptar, mesmo que sejam muito bons jogadores. Aqui, nós estrangeiros é que temos de nos adaptar, eles não abdicam disso. Foi um bocadinho complicado no início, mas português que é português adapta-se a qualquer coisa. Os clubes aqui da I Liga, 50 por cento dos grandes conseguiam a permanência de forma tranquila em Portugal, e alguns dos outros também.

(Ricardo Miranda, mais conhecido por Ricardinho, tem 3 golos e 3 assistências em 62 jogos pelo Petrolul ao longo da última época e meia.)

Tens algumas histórias curiosas que te tenham acontecido aí?
Posso contar duas, no primeiro ano e agora esta época. Na primeira época tive um treinador italiano, Cristiano Bergodi, que agora está a treinar o Universitatea Cluj; em Dezembro tínhamos os médios centros todos à bica de amarelos e houve um jogo que 2 levaram amarelo e ficámos sem médios para o jogo seguinte, que era o penúltimo antes da paragem de inverno. Então, no treino ele meteu o lateral-esquerdo a médio centro e eu a lateral-esquerdo, mas as coisas não lhe estavam a correr bem e eu disse ao adjunto que tinha feito toda a formação a médio centro e que podia tentar, até podia correr bem. Passado 15 minutos ele mandou mudar e correu bem, fui para o jogo como médio e fui o melhor em campo, toda a gente a dar os parabéns no fim e tal. E até acabei esse jogo de máscara, tinha levado uma cotovelada. No domingo tivemos folga e na segunda-feira antes do treino o adjunto chama-me para ir falar com o treinador. Pensei que fosse para me dar os parabéns pela exibição, chego lá e ele diz-me: “Agradeço, gostámos muito, mas se quiseres podes ir de férias já na sexta-feira (risos)!” Eu fiquei a olhar para ele: “Mas porquê, mister? Pensei que ia jogar outra vez no meio-campo, e não me vai convocar?” E ele respondeu: “Quem me dera. Mas levaste amarelo e estás castigado!” Eu tinha 3 amarelos antes desse jogo e estava descansado, pensei que era como em Portugal, que só se apanha castigo ao quinto, mas aqui é ao quarto!

(…)
A outra foi agora há pouco tempo com o Guilherme [Soares]. Aqui é normal quando há pausas da selecção termos mais um dia de folga, e os estrangeiros aproveitam para ir ao seu país. Mas este treinador que temos agora [Eugen Neagoe] é muito à antiga e na paragem de Setembro, tinha acabado de chegar e só deu dois dias de folga, mas eu e o Guilherme fomos ver os vôos e decidimos ir a Portugal na mesma. Falámos com ele, explicámos a situação e dissemos que garantidamente na segunda-feira estávamos no treino às 14h30, como estava marcado, embora o normal seja sempre chegar antes. Ele disse: “Claro, Ricardo, tu e o Guilherme podem ir, desde que estejam no balneário às 14h30 para treinar”. Então viajámos domingo, pagámos 600 euros para ficar 30 horas em Portugal (risos), e depois o vôo de volta era segunda-feira durante a noite e a chegada a Bucareste era às 12h45, de lá a Ploiesti é uma meia-hora. Não dormimos nessa noite e depois o vôo atrasou 45 minutos para Bucareste, mas chegámos ao balneário às 14h15, portanto para nós estava tudo normal. O mister começa a falar, explica o plano para a semana e no fim diz: “Ah, e são 50 euros de multa para o Ricardo e o Guilherme por chegarem atrasados (risos)”! Depois falou connosco e pediu desculpa, disse que era um valor simbólico, mas era para dar o exemplo, até porque somos jogadores com peso no plantel. Nós aceitámos, rimos e pagámos, o Guilherme ainda disse “50 euros, simbólico, mister? (risos)” Mas para nós foi sem problema. Se calhar outros jogadores com outro feitio não teriam aceitado tão bem, iam levantar problemas, mas comigo isso não acontece. Acho que também é por isso que gostam muito de mim aqui.

És natural de Barcelos e o teu percurso está intimamente ligado ao Gil Vicente. Ainda sonhas com um regresso?
Gostava, não escondo. Sei que mudou muita coisa no clube desde que eu saí, e ainda bem, agora é um clube que está a querer intrometer-se no top-6 de Portugal. Sei que é bastante complicado poder voltar, e não sou uma pessoa que costuma traçar assim muitos sonhos, prefiro decidir o que tenho em mãos. Gostava muito de poder voltar à I Liga, e claro que gostava de ainda voltar um dia ao Gil Vicente.

(Emprestado pelo Gil ao Vilaverdense em 13/14, o então médio fez 1 golo em 28 partidas.)

Como foi passar a primeira época de sénior no CNS? O plano foi sempre voltar ao Gil no ano seguinte?
O meu plano foi sempre voltar, mesmo sendo uma diferença e um salto muito grande. A verdade é que fiz uma época muito boa no Vilaverdense ainda como médio centro, a jogar ao lado do André Cunha, fui considerado o jogador revelação da minha série e as coisas aconteceram naturalmente, no fim da época responsáveis do Gil vieram falar comigo a dizer que ia ser integrado no plantel na época seguinte. Tive abordagens da II Liga mas o foco foi sempre ficar no Gil Vicente. Entretanto o mister João de Deus disse-me que, se queria ficar, teria de ser como lateral-direito. Fui para casa, vi vídeos para aprender sobre a posição, porque não sabia nada sobre o que era ser lateral-direito, e decidi aceitar, preferi ficar na I Liga a jogar a lateral-direito do que ir rodar na II a médio. E acho que até acabou por resultar bem para mim!

Acabas por viver uma descida de divisão logo na primeira época como sénior no Gil Vicente. Foi um golpe duro…
O João de Deus saiu logo ao início da época e depois houve a mudança para o José Mota. Descemos mas acho que foi um bom ano a nível individual para mim, aprendi muito, coisas que ficaram para o resto da carreira. Com o José Mota cimentei-me como lateral-direito, ele foi muito bom para mim. Mesmo após erros individuais que cometi, cresci muito à custa disso. Ainda fiz 10 jogos.

Depois fazes 3 épocas na II Liga, até que há nova despromoção, que certamente não estava nos planos…
Foi um ano com bastantes problemas, mudanças de presidentes, reestruturação, foi muito difícil. Penso que tivemos 3 treinadores nessa época. Foi outra lição importante de vida. No fim dessa época tive abordagens de II Liga, mas entretanto o Cadu, que jogou comigo 2 anos em Portugal e é uma lenda na Roménia, perguntou se eu tinha interesse em ir para lá. Na altura nem liguei muito aos valores, queria mesmo era ter essa oportunidade de sair para o estrangeiro. Foi uma decisão difícil, mas hoje posso dizer que foi a melhor decisão da minha carreira.

(Entre 2018 e 2024, o lateral fez quase 200 jogos pelo Voluntari, tendo contribuido para que o clube ficasse em 4º lugar e chegasse à final da Taça em 21/22.)

Na Roménia, viveste a melhor época em 2021/22, com um quarto lugar e a presença na final da Taça. Consideras que podias ter atuado em equipas que lutam regularmente por esses objectivos?
Não escondo que é o amargo destes 8 anos. Desde 2020/21 que surge o interesse de clubes grandes, que lutam pelo campeonato, mas infelizmente os clubes nunca chegaram a acordo. Há um ano e meio tive o Cluj interessado, não aconteceu. O [Universitatea] Craiova também já se falou em 3 ou 4 anos, mas também não aconteceu. Em especial no fim dessa época 2021/22, nessas férias a minha cabeça já estava a pensar noutros clubes, noutros patamares, mas nunca aconteceu, e depois foi bastante difícil voltar à realidade e continuar no Voluntari.

Onde gostaste mais de jogar até agora? Que tipo de futebol se adequou mais às tuas características?
Claro que gostei muito de jogar em Portugal, junto da minha família e no clube do meu coração. Mas a nível individual e profissional, na Roménia as pessoas trataram-me sempre de forma diferente do que era tratado em Portugal.

Qual o aspecto em que consideras que evoluíste mais ao longo da carreira? E onde achas que ainda podes melhorar?
Ter passado cerca de um ano e meio com um treinador italiano fez-me melhorar muito a nível defensivo, e como não tenho essas bases, foi mesmo bastante importante. A posição do corpo, tacticamente, ele é mesmo italiano! Era muito atento aos pormenores, evoluí de forma muito boa nisso. Uns 2 anos depois de trabalhar com ele, fiz uma paragem num aeroporto e encontrei-o a ir para a Roménia, ele estava no Craiova ou no Rapid e disse-me que eu fui o jogador com a melhor evolução a nível táctico e defensivo no Voluntari. Além de ser bom treinador era boa pessoa, e quando é assim acabamos por ter prazer em aprender.
No que posso melhorar… Acho que ofensivamente. Já vou fazer 32 anos, rodo e ajudo em muitas posições, por exemplo como central numa linha de 3, ou no meio-campo, mas por causa disso acabo por não ter a mesma qualidade e fluidez a nível ofensivo que tenho a defender.

(Ricardinho em ação com Soares durante o Gil Vicente 1-3 FC Porto válido pela Taça Crédito Agricola no Verão de 2017.)

Quem são os teus ídolos de infância? Em quem te revias na tua posição (ou revês, caso ainda esteja em actividade)?
Sempre tive dois ídolos: o [Javier] Zanetti, um jogador tão completo a jogar em todo o lado, sempre admirei muito essa adaptabilidade. E o outro eu joguei com ele, é o André Cunha: eu na formação com 16, 17 anos comecei a treinar com os seniores e ele tornou-se o meu ídolo, admirava-o muito, como tratava a bola, a intensidade dele, e mesmo a nível pessoal, como falava com os colegas. Ia sempre ver os jogos do Gil Vicente para o ver, ficava super babado a vê-lo jogar, não tenho vergonha de o dizer. E depois tive a felicidade de jogar com ele no primeiro ano de sénior.

Que treinador (ou treinadores) mais te marcou?
O José Mota, porque confirmou a minha adaptação a lateral-direito e ajudou-me bastante, estreei-me na I Liga com ele. O Pedro Ribeiro pela metodologia de treino; o Bergoli pela aprendizagem tática e defensiva; e o mister Ciobo [Liviu Ciobotariu], porque foi com ele que fiz a minha melhor época e fomos à final da Taça.

O que ainda esperas atingir na carreira?
Ainda não me considero velho, fisicamente estou muito bem e tenho a ideia de jogar até aos 36, 37 anos. Vamos ver o que o corpo diz. Tenho um bocadinho pena de não ter conseguido jogar competições europeias, sei que agora já vai ser complicado, mas eu gosto de grandes desafios. Gostava de fazer 500 jogos a nível profissional, já não falta muito, ando perto dos 400, mesmo com 2 épocas em que joguei muito pouco (a primeira no Gil Vicente e a da lesão no Voluntari), e acho que era algo de que me ia orgulhar, ainda que já tenha orgulho na carreira que fiz até agora. Sinto prazer a jogar, é algo que me motiva, e enquanto continuar a sentir-me assim, não vou parar.

André Teixeira: “Não se ganham troféus todos os dias”

(André Teixeira tem 1 golo e duas assistências em 15 jogos na Albânia.)

André Teixeira dificilmente podia ter tido melhor maneira de fechar 2025: reforço do Dinamo City para esta temporada, o futebolista luso marcou o seu primeiro golo pelos albaneses no dia 19 de Dezembro no triunfo diante do Vora (2-1), e no passado sábado, dia 28, jogou os 90 minutos na conquista da Supertaça diante do Egnatia (3-1).
Natural de Vila Nova de Gaia, o central representou Belenenses, Leixões, Trofense e Mafra até emigrar pela primeira vez em 2017, e a verdade é que nunca mais voltou a jogar no nosso País, tendo atuado em Chipre (AEL Limassol e Anorthosis), Israel (Hapoel Petah Tivka) e Grécia (Kifisias) antes de se mudar para Tirana no último Verão.
Atualmente com 32 anos, André Teixeira, que cumpriu grande parte da formação no FC Porto e marcou 1 golo em 32 internacionalizações pelo nosso País entre os Sub-16 e os Sub-20, assume nesta entrevista que o nível do campeonato albanês o surpreendeu pela positiva, e revela que tem a ambição de ainda voltar a jogar pelo menos nas fases de qualificação de provas europeias:

À Bola pelo Mundo/Conversas Redondas: Em pouco mais de uma semana marcaste o primeiro golo na Albânia, decisivo para uma vitória que vos permite continuar na luta pelo título, e ganhaste a Supertaça. Pode dizer-se que foi a melhor semana da tua carreira desde há algum tempo?
André Teixeira: Sim, é verdade que foi uma semana a nível individual como já não tinha há bastante tempo. Não se ganha troféus todos os dias, e o primeiro golo por uma equipa também é sempre algo que nos marca. Foi uma semana em cheio!

Já tinhas sido campeão em Portugal (ainda que na II Liga) e ganho a Taça no Chipre. Este era o troféu que faltava?
Não, ainda faltam mais (risos)! Queremos ganhar sempre tudo o que for possível! Numa equipa que luta por títulos, há sempre a vontade e expectativa de querer mais.

Quais eram os objectivos do clube para esta época?
É uma equipa que luta por tudo, o objectivo é ganhar o título mas também todas as competições em que o clube está inserido. Temos uma equipa com qualidade, no contexto do campeonato albanês, o clube esteve muito tempo sem ganhar títulos, inclusivamente esteve na II Divisão, mas com a entrada deste presidente [Ardian Bardhi] as coisas mudaram, está tudo mais organizado e está a tentar pôr o clube no patamar onde sempre esteve.

(Na temporada passada, o futebolista gaiense fez 28 jogos pelos cipriotas do Anorthosis Famagusta.)

Como é que surgiu a possibilidade de ires para a Albânia?
O contrato com o Anorthosis acabou e recebi algumas ofertas, mas quis esperar. Entretanto chegou o último dia do mercado, o Dinamo era a única oferta ainda em cima da mesa naquele momento e não quis arriscar esperar mais tempo. E até agora tem sido uma experiência que tem corrido bastante bem, receberam-me bem, graças a Deus tenho jogado sempre, já conquistámos um título e estou contente pela minha decisão.

Tens contrato por quanto tempo?
Até ao fim da época.

Como é viver aí? O clima, a comida, as pessoas, a comunicação…
O clima quando cheguei estava bastante calor, agora já se começa a notar frio, e chuva também. É mais ou menos como em Portugal. De comida, eles têm coisas típicas mas ainda não experimentei grande coisa, fui a um restaurante tipo taberna como jantar de equipa com tábuas de carnes, pratos com queijo, pratos típicos. Eu de comida não sou muito esquisito (risos)! Mas nada bate a comida portuguesa. Eles recebem bem, o facto de ser estrangeiro eles gostam, até recebem melhor os estrangeiros do que os próprios albaneses. Gostam de tentar ajudar, mas se alguém discorda do que estão a dizer, começam-se a exaltar, a achar que estão contra eles. A comunicação é mais difícil, porque nem toda a gente fala inglês, o país esteve um bocado fechado durante alguns anos, e os primeiros contactos do exterior até foram mais de Itália, eles têm uma ligação forte a Itália, mesmo em canais de televisão e tudo. Por isso até falam um pouco de italiano. Nos restaurantes que fui até agora falam bem inglês, mas supermercados é mais difícil, tem de ser por gestos.

Adaptaste-te rapidamente ou nem por isso?
Não foi uma adaptação muito rápida, mas acredito que agora estou bem adaptado. Tirana é uma capital europeia, bastante modernizada, não falta nada. O país está a desenvolver-se bastante, depois de se conhecer mais a realidade é fácil de adaptar. O mais difícil é o conduzir, não há muitas regras, é um bocado o salve-se quem puder (risos)!

(No Verão de 2023, o central assinou pelo Hapoel Petah Tivka, mas o conflito de Israel com a Palestina precipitou a sua saída a meio da época.)

E já falas alguma coisa de albanês?
Consigo dizer algumas palavras, mas mais da parte de futebol. O treinador praticamente só fala albanês, o assistente é que traduz. Algumas já vou apanhando.

Tens algumas histórias curiosas que já te tenham acontecido aí?
Assim o mais curioso é o facto do nosso treinador gostar de treinar bastante, no dia antes dos jogos fazemos treinos de mais de hora e meia ou duas horas. Nunca tinha visto isso no futebol, e muitos dos meus colegas também não. A verdade é que tem dado resultado, e é isso que conta. Depois, aqui eles são muitos muçulmanos, mais ou menos metade da equipa, e por isso muitos companheiros têm as rezas deles, e os próprios horários dos treinos são orientados com isso, principalmente à sexta-feira.

E em termos de futebol? Surpreendeu-te de alguma forma?
Sinceramente, não conhecia praticamente nada antes de vir. Falei com o Tiago Ferreira, que está agora no Paços de Ferreira [jogou no Kukesi em 2022/23], perguntei-lhe algumas coisas, mas quando cheguei aqui surpreendeu-me. Há equipas que até têm qualidade, não esperava esse nível. Claro que outras são de um nível mais baixo, tacticamente não são tão organizadas, algumas não tão intensas. Mas nós e mais três equipas, as que estão nos primeiros lugares, são equipas com qualidade, até jogam bem, gostam de jogar, têm jogadores competitivos, com agressividade.

(No AEL Limassol, André Teixeira viveu a primeira experiência no estrangeiro e o balanço é inteiramente positivo: mais de 150 jogos, capitão e uma Taça ganha.)

Estiveste muitos anos no Chipre, e entretanto passaste também por Israel e Grécia. Como avalias os vários tipos de futebol?
A comparar, a Albânia é o que está mais abaixo. As pessoas não têm bem a noção, mas o campeonato do Chipre tem bastante qualidade, com investimentos altos, trazem jogadores de grande qualidade, fazem muito boas campanhas nas competições europeias. É um nível alto em relação àquilo que se pensa. Israel surpreendeu-me bastante, não tem muitos jogadores estrangeiros mas o jogador israelita é bom, tecnicamente muito bom, tacticamente não são tão organizados mas são intensos, competitivos: vês um número 10 a correr de um lado para o outro, a dar carrinhos! O campeonato grego tem 4 grandes que são bastante fortes, depois o resto é mais equilibrado.

És natural de Gaia, fizeste a formação basicamente entre Candal e FC Porto, mas no primeiro ano de sénior vais em definitivo para o Belenenses. Porquê?
Quando acabou o campeonato de juniores nesse ano [2012], o FC Porto ainda não sabia se ia fazer equipa B, mas disseram-nos logo que, se fizessem, iam dar prioridade aos emprestados. Entretanto eu estava no Europeu de sub-19 e o Belenenses abordou-me, era um clube histórico, mesmo estando na II Liga, o projecto que tinham era bom. Decidi arriscar. Não joguei muito, porque tinha acabado a formação a lateral-direito e fui para suplente do capitão, que era o Duarte Machado. Fizemos uma época muito boa, acho que ainda é o recorde de pontos do campeão da II Liga, e por isso era difícil para o treinador mudar, mas posso dizer que foi uma das melhores épocas que tive, o Mitchell Van der Gaag foi o treinador que mais me marcou, tratava todos por igual, jogassem ou não. Evoluí bastante com ele, até defensivamente, porque ele foi central. Foi uma época muito importante para a minha carreira.

Passas depois por 3 empréstimos a equipas da II Liga (Leixões, Trofense e Mafra) e acabas por voltar em definitivo para o Leixões em 2016/17, mesmo tendo jogado pouco na primeira passagem…
Chegámos a acordo para rescindir, porque já eram muitos empréstimos sucessivos. Surgiu o Leixões, novamente um clube histórico, foi também um passo muito importante na minha carreira, porque nessa época voltei à minha posição, que é central. Até recebi um prémio de jogador revelação da II Liga!

(Emprestado pelo Belenenses ao Leixões em 13/14, o defesa regressou ao Estádio do Mar em definitivo na época 16/17.)

Mas também chegaste a ser guarda-redes, e até com um penalty defendido!
É verdade. Foi num jogo contra o Aves, o nosso guarda-redes foi expulso por fazer uma falta à entrada da área. Ninguém estava a querer assumir, eu estava perto do treinador, perguntei se ele queria que fosse eu a ir para a baliza e ele disse que eu podia ir. No livre, a bola bate na barreira, vai para fora da área e quando volta um jogador nosso faz penalty… e eu defendi. Nunca mais fui à baliza na carreira, por isso estou com um registo de 100 por cento (risos)!

E como surge a possibilidade de ires para o Chipre (AEL Limassol)?
O mister Bruno Baltazar tinha jogado contra mim na época anterior quando estava no Olhanense e ligou-me, disse que gostava de mim, das minhas características. O AEL ia jogar as qualificações para as competições europeias, fui ver, tinha alguns jogadores ligados a Portugal e ele disse que ainda ia trazer mais também. Juntando tudo, achei que seria uma opção boa para mim, já estava há algum tempo na II Liga, era difícil voltar a dar o salto para a I. Agora se calhar a mentalidade dos clubes portugueses já é diferente, mas naquela altura não havia tanto essas negociações de clubes da I Liga irem buscar jogadores às divisões inferiores. E financeiramente também foi uma proposta vantajosa, claro.

Como é ser treinado por um português no estrangeiro? É positivo ou dá-te mais pressão?
Tem um pouco dos dois. Os jogadores de lá olham assim um pouco desconfiados, que o treinador português vai favorecer o jogador português, mas não é assim. Claro que criamos uma boa relação, porque falamos a mesma língua e tudo isso, mas a exigência, pelo menos neste caso, era a mesma. Aliás, até foi quando ele saiu que me comecei a afirmar mais.

(Em Janeiro de 2024, o futebolista português rumou ao Kifisias da Grécia, por quem fez 11 jogos em meia temporada.)

Acabaste por ficar mais 5 anos, ganhaste uma Taça e perdeste outra. Surpreendeu-te teres ficado tanto tempo?
Cheguei a ser capitão e sou o segundo estrangeiro com mais jogos no clube. Foi muito bom. Nos últimos anos é que o clube passou por duas mudanças de direcção, porque o presidente decidiu sair, houve uma reestruturação e o orçamento foi caindo. Ao mesmo tempo também apareceram clubes com maiores orçamentos, que ajudou a que a Liga evoluísse, ficasse mais forte e competitiva. Agora no último ano as coisas já mudaram positivamente, entraram pessoas no clube com melhores ideias e com investimento maior, mas esteve ali um ou dois anos à deriva.

Como se dá a ida para Israel? E porque sais logo a meio da época, ainda por cima para um clube “aflito” na Grécia?
O contrato com o AEL acabou, eles disseram que não tinham possibilidade de me dar um contrato melhor ou mesmo igual, pelos motivos que já referi, e decidi arriscar e explorar algo novo, senti que era a altura. Infelizmente aconteceu o que aconteceu em Israel [eclodir da guerra com a Palestina]. Estava a ser uma experiência muito boa, estava a gostar bastante do clube e do país e tive pena de ter de sair pelas questões que foram. Ainda voltei por mais 2 meses, porque me pediram para fazer os jogos até ao início do mercado e em Janeiro deixavam-me sair. Surgiu o Kifisia, que estava numa situação complicada e precisava de reforços, e como pude sair livre juntou-se o útil ao agradável. Nem pensei duas vezes, queria era sair dali. Para eles era um pouco mais normal, até porque em Israel, ao contrário da ideia que se fica ao ver as notícias, vive-se em segurança, eles têm um sistema que impede por exemplo os mísseis de atingir as cidades, explodem logo no céu, mas nós não estamos habituados a viver assim. Tinha a noção que ia ser difícil na Grécia, e ainda lutámos até ao fim, chegámos a sair da zona de descida, mas nos últimos 3 jogos tivemos bastantes lesões, eu próprio também me lesionei, e depois perdemos 2 jogos em casa com uma equipa que já tinha descido e outra que estava a lutar connosco. Mas gostei muito, é um clube com pessoas muito sérias e agora estão de volta à I, está lá o Hugo Sousa, com quem ainda joguei no FC Porto e que aconselhei ao clube.

Voltaste ao Chipre a época passada, mas o Anorthosis estava numa fase muito complicada… Já tinhas essa noção antes?
Sim, conhecia bem o Kiko e ele tinha-me explicado a situação do clube. As pessoas que entraram lá, com todas as dificuldades que encontraram, foram tentando fazer o melhor que puderam. Houve um atraso ou outro mas no fim recebi tudo, não tenho nada a dizer. Eles foram sempre sérios desde o início, explicaram que o clube estava com problemas, que tinham de baixar o orçamento mas iam tentar fazer o melhor possível para ir cumprindo, o treinador mostrou bastante interesse em mim. Era um clube um pouco como o AEL, um clube histórico do Chipre, um contrato de um ano, numa uma realidade que já conhecia, que me podia dar visibilidade e lutar por alguma coisa, porque um clube assim, mesmo com dificuldades a exigência vai estar lá. E o treinador [Giannis Okkas] também mostrou bastante interesse em mim.

(Ligado ao Belenenses durante 4 épocas, onde atuava como lateral direito, o gaiense fez apenas 10 jogos oficiais, o suficiente para ser Campeão da II Liga.)

Depois acabaste por ser treinado por um antigo campeão do mundo enquanto jogador (Mauro Camoranesi)!
Uma pessoa muito simples, adorei trabalhar com ele, bastante acessível. Passava-nos bastante tranquilidade, confiança, deixava-nos à vontade. Tinha um preparador com ele muito bom, que já tinha trabalhado em clubes fortes de Inglaterra, Itália, e ajudou-nos a começar a ter melhores resultados.

Onde gostaste mais de jogar até agora? Que tipo de futebol se adequou mais às tuas características?
Sinceramente, gostei de estar em todos. É difícil escolher um, em todos tive momentos bons. Não há um que tenha gostado mais.

Qual o aspecto em que consideras que evoluíste mais ao longo da carreira? E onde achas que ainda podes melhorar?
Vou responder um bocadinho da mesma forma. Nós estamos sempre em constante desenvolvimento, fui melhorando em todos os aspectos ao longo da carreira. O central que sou hoje não é o que era quando voltei à posição, estou mais evoluído. Tento melhorar em todos os aspectos que possa e que acredito que sejam importantes para um defesa. Ainda posso melhorar em tudo!

Quem são os teus ídolos de infância? Em quem te revias na tua posição (ou revês, caso ainda esteja em actividade)?
Como centrais, gostei sempre muito do Pepe e do Sergio Ramos, até por terem jogado juntos muito tempo. Fui observando com mais atenção. Na actualidade, gosto muito do Rúben Dias, pela liderança, pela maneira como está em campo, pelo central que é, completo.

(Recrutado pelo FC Porto ao Candal em 2004, André Teixeira representou os “dragões” durante 8 temporadas desde os Infantis até aos Juniores.)

Que treinador (ou treinadores) mais te marcou?
Todos me marcaram pela positiva, o Van der Gaag mais pelo que disse. Na formação do FC Porto com o Pedro Emanuel, que também foi central, acredito que evoluí bastante nesses aspectos. E depois tenho de referir o treinador que apostou em mim no AEL, o Dusan Kerkez. Eu não estava a jogar muito, um treinador português foi embora, veio um novo, eu achava que as coisas não iam ser positivas para mim e a verdade é que consegui dar a volta, ele apostou bastante em mim.

O que ainda esperas atingir na carreira?
Enquanto puder e tiver capacidade, espero que ainda vá continuar a jogar por alguns bons anos, sinto-me bastante bem e trabalho para isso. Não penso muito no futuro, sinceramente, penso mais nos objectivos mais próximos, tentar ganhar os títulos pelos quais estamos a lutar, destacar-me na equipa, no campeonato. Se as coisas correrem bem agora, seguramente o futuro vai ser melhor. Vejo-me a jogar qualificações para competições europeias, mas claro que sonho sempre com o mais alto.

Somaste 32 internacionalizações nas selecções jovens e foste campeão nacional de juvenis e juniores no FC Porto. Quais os grandes nomes da tua geração, e quais aqueles de quem se esperava muito e acabaram por não confirmar essas expectativas enquanto seniores?
Da minha geração no FC Porto, os que se destacaram mais foram o Tozé, o Fábio Martins, o Ricardo Alves, o Tiago Ferreira. Na selecção o [João] Cancelo, é um ano mais novo que eu mas já jogava com a gente, o Bruma também. O Tiago Ilori, o João Carlos Teixeira. Ah, e o João Mário, que era o nosso capitão. Das selecções, há um que jogava no Sporting, o Mateus Fonseca, era 10, falava-se muito dele, tinha bastante qualidade, ele e o Betinho, podiam ter chegado a um nível alto, mas por esta ou aquela razão não aconteceu. No FC Porto o Paulo Jorge, era um trinco muito bom, depois foi para o Blackburn Rovers e sinceramente nem sei onde está a jogar agora.

Chiquinho Conde: a figura maior do futebol moçambicano não desiste de fazer história

(Selecionador Moçambicano desde Julho de 2021, Chiquinho Conde está a fazer um belíssimo trabalho e ontem conquistou um triunfo absolutamente histórico.)

O dia 28 de Dezembro de 20925 ficará para sempre gravado na História do futebol de Moçambique: ao segundo jogo da sexta participação no CAN (Campeonato Africano das Nações), os Mambas festejaram pela primeira vez uma vitória na prova. Faisal Bangal, Geny Catamo (Sporting) e Diogo Calila (Santa Clara) foram os heróis dentro do campo, mas o triunfo histórico teve um outro protagonista do lado de fora: Chiquinho Conde, um nome que se confunde com a própria modalidade no país lusófono.

Como jogador, o antigo avançado esteve presente em todos os grandes momentos da então jovem selecção: convocado para a fase final do CAN na primeira participação de Moçambique, em 1986 (3 jogos, todos como titular), estaria também na lista nas edições de 1996 (mais 3 jogos) e 1998 (2 partidas, sempre como opção inicial) – é, ainda hoje, o jogador moçambicano com mais participações na competição. Enquanto seleccionador, cumpre na prova que se disputa em Marrocos a segunda presença consecutiva, tendo sido o único a conseguir 2 apuramentos nessa condição.

(Foi no Vitória FC que Chiquinho Conde mais deixou a sua marca enquanto jogador: foram 3 passagens e 63 golos em 169 jogos que contribuíram para uma subida e para um apuramento europeu.)

Esteve, de resto, muito perto de conseguir cumprir outro sonho de todo um país este ano: o apuramento inédito para um Campeonato do Mundo. A possibilidade de acontecer já em 2026 caiu com a derrota caseira por 2-1 ante a Guiné-Conakri (orientada pelo português Paulo Duarte), na penúltima jornada da fase de qualificação, mas o sonho ficou apenas adiado, num grupo ganho pela Argélia (Uganda ficou em segundo, com os mesmos pontos de Moçambique, mas não foi um dos quatro melhores segundos, pelo que também ficou fora do Mundial).

“Foi fantástico ver os meus jogadores a desfrutarem, a colocarem um povo a sonhar por uma posição de relevo naquilo que é a competição para um Campeonato do Mundo. Outrora, nós só distribuíamos pontos. Isto é um sinal também de crescimento. Obviamente que eu percebo que o adepto quer ganhar sempre, mas também temos de pôr os pés no chão e perceber que as coisas são feitas de forma paulatina e nós vamos aprender com os erros e vamos crescer com aquilo que esteve mal”, disse após o fim da prova o antigo avançado, que no passado dia 22 de Novembro celebrou o 60º aniversário.

(No Verão de 1994, o avançado rumou ao Sporting a pedido de Carlos Queiroz, mas não foi além de 3 golos em 31 jogos ao longo de época e meia.)

Treinador desde 2005, numa carreira feita quase integralmente no seu país (à excepção de 2 temporadas a liderar a equipa de sub-23 do Vitória FC, entre 2018 e 2020), Chiquinho Conde é um nome muito reconhecido em Portugal acima de tudo pela carreira como jogador. Ao todo, foram 17 épocas como futebolista profissional no nosso país, por 8 clubes diferentes, sendo que as passagens mais marcantes aconteceram em 3 históricos: Belenenses, Sporting e Vitória sadino.

Chegado a Lisboa no verão de 1987, ainda com 21 anos e depois de se ter sagrado campeão no seu país pelo Maxaquene, Chiquinho Conde integrou um plantel mítico dos azuis do Restelo, que liderado por Marinho Peres viria a terminar o campeonato no terceiro posto, à frente do Sporting, e a apenas 3 pontos do Benfica, ganhando a Taça na época seguinte aos encarnados numa final onde cumpriu os 90 minutos. No fim de 1990/91, após a descida de divisão dos homens de Belém, por quem somou 134 partidas e 35 golos em 4 anos, rumou a um Braga ainda muito longe do patamar onde está actualmente, fazendo 5 golos em 29 jogos na única época que passou no Minho.

(Contratado pelo Belenenses em 1987, o moçambicano venceu uma Taça de Portugal na primeira passagem e voltou ao Restelo na segunda metade de 95/96.)

O regresso à ribalta do futebol nacional surgiria com a mudança para Setúbal, em 92/93, numa época em que o Vitória até se encontrava na II Divisão. Chiquinho Conde protagonizou uma dupla absolutamente infernal com o nigeriano Yekini (que conseguiu o feito incrível de ser o melhor marcador do campeonato no segundo escalão e depois no primeiro em épocas consecutivas), apontando 27 golos em 2 temporadas, que lhe valeram a transferência para o Sporting no verão de 1994, já com 28 anos.

Sob o comando de Carlos Queiroz, alternou a titularidade com o banco de suplentes, acabando a primeira época em Alvalade com 26 jogos, 3 golos e mais uma Taça de Portugal. Em 95/96, porém, perdeu espaço, somando apenas 5 jogos até Dezembro, altura em que voltou ao Belenenses por empréstimo – que também não resultou (somente 4 jogos e nenhum golo).

No verão de 1996, regressaria ao Vitória de Setúbal, reeditando até a parceria com Yekini, recrutado a meio da época… por pouco mais de 3 semanas: em Fevereiro de 1997 rumou aos Estados Unidos, por recomendação de Carlos Queiroz, sendo colega de grandes nomes do futebol mundial como Walter Zenga, guarda-redes internacional italiano, Alexi Lalas, excêntrico central norte-americano, ou Carlos Valderrama, lendário número 10 da selecção da Colômbia. A aventura duraria um ano: em Janeiro de 1998 voltou mais uma vez a Setúbal, onde viveria um ano e meio mágico, sendo absolutamente fulcral na campanha de 98/99, que culminou com o quinto lugar e consequente apuramento para a Taça UEFA, sob o comando de Carlos Cardoso (falecido no último sábado), apontando um total de 16 golos.

(Internacional A pelo seu País em 98 ocasiões – 4 golos -, Chiquinho Conde disputou 3 CAN’s: 1986, 1996 e 1998.)

A época 99/00, todavia, acabaria com a descida de divisão. Prestes a fazer 34 anos, Chiquinho Conde ainda permaneceu na I Liga mais uma época, ao serviço do Alverca de Jesualdo Ferreira (1 golo em 18 jogos), mudando-se em 2001/02 para o Portimonense, na II Liga, onde apontou 3 golos em 37 partidas. Nas 2 temporadas que se seguiram conheceu outras realidades do futebol nacional, representando o Imortal na então denominada II Divisão B (equivalente à actual Liga 3) e o Montijo na III Divisão (hoje Campeonato de Portugal), encerrando a carreira já perto dos 39 anos no verão de 2004.

Em Outubro de 2021, pouco mais de um ano depois de ter regressado ao seu país após a etapa como treinador da equipa de sub-23 do Vitória de Setúbal, Chiquinho Conde foi convidado a assumir o comando da selecção de Moçambique de forma oficial (já tinha orientado o seu país interinamente em 2010, num particular contra Portugal, de… Carlos Queiroz, então a preparar a participação no Mundial da África do Sul), rendendo o português Horácio Gonçalves. O apuramento para o Mundial’2022 estava praticamente posto de parte, pelo que o objectivo passava acima de tudo pela qualificação para o CAN’2023 – Moçambique não se apurava desde 2010.

Missão dada, missão cumprida por Chiquinho Conde. Os Mambas terminaram no segundo lugar do seu grupo, só atrás do Senegal e à frente de Benim e Ruanda, e apuraram-se assim para a prova realizada na Costa do Marfim, onde ficaram a apenas um ponto de chegar aos oitavos-de-final: empataram 2-2 contra o Egipto de Rui Vitória (mercê de um penalty de Salah aos 97 minutos) e o Gana, sendo traídos pela pesada derrota no meio dos 2 jogos frente a Cabo Verde (3-0).

(Foi, sem surpresa, ao serviço do “seu” Vitória que o moçambicano viveu, até ao momento, a sua única experiência em Portugal enquanto treinador, tendo orientado os Sub-23 dos sadinos nas épocas 18/19 e 19/20.)

Uma participação, ainda assim, muito positiva – era, de resto, a melhor de sempre… até este domingo. Agora, Chiquinho (e todo um país por trás dele) tem de dar o passo seguinte e levar, nesta quarta-feira véspera de ano novo, Moçambique à sua segunda vitória de sempre sobre os Camarões (a única aconteceu em… 1983), sendo que um empate até pode chegar para garantir o apuramento – nesse caso, porém, a Costa do Marfim, actual líder do grupo, com 4 pontos (venceu os Mambas por 1-0 na primeira jornada, empatando depois 1-1 com os Camarões), teria de perder com o Gabão, que só tem derrotas.

“Não entrarmos de bico de pés, usamos o nosso fato-macaco, com a nossa humildade, com a nossa crença, acreditar no nosso potencial, sempre, independentemente dos adversários, mas sempre com a mesma humildade. Estar sempre patente na nossa cabeça que ganhar é o nosso principal objetivo, mas se não der para ganhar, nunca poderá dar para perder. O sonho tem de estar sempre patente: quando estamos na selecção nacional, temos de meter na cabeça que queremos ver o que é que está por detrás da parede, o que não conseguimos ainda”, dizia o seleccionador moçambicano antes do início da competição, reconhecendo uma realidade que é transversal a muitos países africanos: “O povo vê em nós uma tábua de salvação”.

(Em Março de 1997, o avançado rumou aos Estados Unidos para representar o New England Revolution, onde foi colega de Walter Zenga e Alexis Lalas.)

Com o contrato com a Federação moçambicana a terminar após o fim do CAN, Chiquinho Conde não se assusta. “Esta é a minha cadeira de sonho, como sempre disse. Aqui estou há 4 anos, quando todos pensariam que, se calhar, iam ser só 2, porque nos primeiros 2 anos eu tinha a obrigatoriedade de qualificar Moçambique para o CAN e para o CHAN. Fui o primeiro moçambicano a qualificar Moçambique para duas CAN consecutivas. Fui o primeiro seleccionador a levar a selecção moçambicana para os quartos de final (do CHAN, em 2024). Mas eu tenho as minhas malas sempre feitas, porque, se a bola bate no poste e não entra, coloca-se o risco de a viagem estar marcada de imediato”, assumiu, antes do início do estágio realizado no Algarve, o Doutor Honoris Causa em Ciências do Desporto pela Universidade moçambicana Púnguè desde 28 de Outubro.

“Eu sou, por natureza, otimista. Se fechar uma porta, abrirá sempre uma janela. Por isso, o futuro depende muito do meu presente”, completou então. O presente, por agora, é animador; o futuro, a continuar assim, só pode ser risonho – e de preferência com o Dr. Chiquinho Conde a continuar sentado no banco dos Mambas.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Mac Allister: Irmãos a bater à porta da História

(Kevin e Alexis Mac Allister jogaram juntos durante 25 minutos pela Seleção Argentina, 32 anos depois do Pai, Carlos, também ter sido internacional A.)

A última sexta-feira ficou marcada para sempre na História do futebol angolano… mas também de uma família argentina em particular. No particular realizado em Luanda entre os Palancas Negras e a campeã do mundo em título, inserido nas comemorações dos 50 anos de independência de Angola, Lionel Scaloni promoveu a estreia absoluta de Kevin Mac Allister, central de 28 anos que está na terceira temporada nos belgas do Union St. Gilloise (campeão na época passada) e que, como o (pouco usual) apelido indica, é irmão do médio do Liverpool, Alexis, 2 anos mais novo.

Durante 25 minutos, os Mac Allister partilharam o relvado do Estádio 11 de Novembro: Alexis, titular, saiu aos 85 minutos, com Kevin a entrar aos 60. O defesa, que se tornou no terceiro da família a representar a selecção das Pampas – o pai, Carlos, registou 3 internacionalizações em 1993, acabando no entanto por ficar de fora da lista final para o Mundial dos Estados Unidos, no ano seguinte –, ganhou assim legítimas aspirações a estar presente no Mundial do próximo verão, desta vez em campo, depois de em 2022 ter estado nas bancadas a apoiar o irmão na caminhada até à conquista do título.

(Bobby e Jack Charlton representaram a Inglaterra nos Mundiais de 1966 e 1970.)

Os Mac Allister podem assim vir a tornar-se no mais recente caso de irmãos a jogar em Mundiais, num cenário que se verifica já desde a quinta edição. Em 1954, os irmãos Fritz e Ottmar Walter, da Alemanha Ocidental, conquistaram a prova (Fritz era mesmo o capitão), com Jack e Bobby Charlton a repetir o feito 12 anos depois pela selecção de Inglaterra – jogariam ainda ambos na edição seguinte. A Alemanha, de resto, teve irmãos também em 1982: Bernd e Karl-Heinz Forster fizeram dupla de centrais na caminhada que só terminou com a derrota na final, diante de Itália (nesta edição, a ainda União Soviética tinha como suplentes do mítico Dasaev os irmãos Viacheslav Chanov e Viktor Chanov, ambos guarda-redes).

Neste quesito, porém, os Países Baixos são quem tem mais tradição. Nas edições de 1974 e 1978 (ambas acabaria como vice-campeã), a Laranja Mecânica teve René e Willy van de Kerkhof no seu elenco – até hoje são os únicos gémeos a marcar numa edição de um Mundial, no caso no argentino; em 1990, Erwin e Ronald Koeman foram chamados (o médio num papel mais secundário, com o defesa a ser uma das grandes figuras da equipa); e mais recentemente ficou na memória colectiva a dupla de gémeos De Boer: Frank (central) e Ronald (extremo) coexistiram nas equipas que disputaram os Mundiais de 1994 e 1998.

(Eden e Thorgan Hazard representaram a Bélgica nos Mundiais 2018 e 2022.)

No Itália 90, além dos irmãos Koeman, havia ainda mais 2 duplas de gémeos. Os Emirados Árabes Unidos, na sua primeira e única participação até ao momento, apresentaram-se com os defesas Eissa Meir Abdulrahman, lateral-direito, e Ibrahim Meir Abdulrahman, lateral-esquerdo. O Egipto, por seu lado, tinha no seu elenco Ibrahim Hassan, lateral-direito, e Hossam Hassan, então um jovem avançado de 23 anos que viria a tornar-se posteriormente num dos mais destacados jogadores de sempre do país.

Na edição de 2002, de má memória para Portugal, houve mais um par de gémeos, e curiosamente ambos defrontaram a equipa das quinas (no único jogo que vale de facto a pena recordar da selecção nacional nesse torneio). Michal Zewlakow, lateral-direito, foi titular, saindo aos 71 minutos, enquanto o avançado Marcin Zewlakow havia entrado aos 56 minutos. 4 anos depois, seriam os suíços Degen a fazer esse papel: Philipp, lateral-direito, e David, médio.

(Irmãos presentes no Campeonato do Mundo por Países diferentes: Kevin-Prince e Jérôme Boateng fizeram história em 2010 ao defrontarem-se no duelo entre Gana e Alemanha.)

Em 2018, foram 3 as duplas de irmãos presentes na Rússia. Desde logo, uma convocada pelo actual selecionador de Portugal: Eden e Thorgan Hazard, na Bélgica, então ainda orientada por Roberto Martínez. Eden era mais velho 2 anos e o capitão dos Diabos Vermelhos, ostentando o estatuto de estrela da equipa por conta dos vários anos estrondosos no Chelsea; Thorgan, por seu lado, tinha um papel mais secundário (jogava no Borussia Monchengladbach e não era titular na selecção), tendo ainda assim sido novamente convocado com o irmão para a edição de 2022.

Na equipa da casa, a dupla era de gémeos: Anton e Aleksey Miranchuk. Ambos eram médios ofensivos e detinham apenas o estatuto de suplentes – Anton, de resto, nem chegou a jogar nesse Mundial, com Aleksey a entrar no decorrer de um jogo. O mesmo aconteceu no México, no caso com os irmãos Dos Santos: Giovani era o mais renomado (já tinha disputado as edições de 2010 e 2014), enquanto Jonathan fez a sua estreia nessa edição; tanto um como o outro, porém, acabariam por fazer apenas um jogo a sair do banco.

(Em 2010, as Honduras levaram os irmãos Palacios ao Mundial: Johnny, Wilson e Jerry.)

No Qatar, além dos 2 Hazard, houve mais 3 duplas de irmãos na mesma selecção. Sergej e Vanja Milinkovic-Savic (filhos de Nikola Milinkovic, médio que representou Chaves e Alverca na década de 90 e inícios de 2000) foram ambos titulares indiscutíveis na Sérvia, o mesmo acontecendo com André e Jordan Ayew no Gana – já tinham estado também no Brasil em 2014; já Theo Hernández acabou por beneficiar da lesão grave sofrida pelo irmão mais velho, Lucas, logo no jogo inaugural, para ganhar o lugar em França.

O caso mais assinalável, todavia, aconteceu na edição de 2010. Não foram 2, mas 3 os irmãos chamados à fase final na selecção das Honduras: Johnny, Wilson e Jerry Palacios – os 2 últimos viriam a repetir a presença 4 anos depois. Na África do Sul, de resto, houve mais 2 selecções com duplas de irmãos: a Costa do Marfim (Kolo e Yaya Touré, que já tinham disputado também a edição de 2006 e estariam ambos igualmente em 2014) e o Paraguai (Diego e Edgar Barreto).

(Os gémeos De Boer, Frank e Ronald, representaram os Países Baixos nos Mundiais de 1998 e 2002.)

E podiam ser 3, não fosse a “deserção” de Kevin-Prince Boateng: nascido na Alemanha e internacional germânico nas camadas jovens, o médio ofensivo decidiu jogar a nível sénior pelo Gana, o país do pai, e os caprichos do sorteio colocá-lo-iam precisamente a defrontar o seu país de nascimento – e por conseguinte o irmão Jérôme. Foi a primeira vez na História dos Mundiais que irmãos se defrontaram – e a segunda aconteceu com a mesma dupla 4 anos depois; em 2022, Iñaki Williams, também no Gana, e Nico Williams, por Espanha, representaram países diferentes mas não jogaram entre si.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Ponck: um regresso a Portugal com nova identidade… e idade

(Perto de atingir 150 jogos na nossa I Liga, Carlos Ponck está de regresso a Portugal e à Vila das Aves.)

10 meses depois de ter deixado o Moreirense para rumar aos israelitas do Hapoel Beer Sheva, Carlos “Ponck” foi esta terça-feira oficializado como reforço do AVS SAD. O internacional cabo-verdiano, que entre 2017 e 2019 representou o Desportivo das Aves, assinou a custo zero até ao final da temporada, num reforço de peso e experiência para o actual último classificado do campeonato – até demais: é que, se em Janeiro os registos oficiais do atleta diziam que tinha 30 anos, feitos a 13 de Janeiro, agora apontam para os… 35, celebrados no passado dia 21 de Outubro.

É verdade: Carlos “Ponck”, que até agora surgia nos registos da FPF com o nome Carlos dos Santos Rodrigues e a data de nascimento de 13/01/1995, tem agora um novo perfil, no qual é denominado Carlos Israel Latina da Silva e aparece como nascido em 1990. No site da Liga, de resto, já se encontra registado como jogador do AVS mas ainda surge com os dados utilizados até aqui – uma questão de “falta de actualização” de informação, de acordo com fonte do clube.

(O Moreirense tinha sido o último clube do cabo-verdiano em Portugal: foram 29 jogos pelos axadrezados durante época e meia.)

A oficialização da contratação do central/médio cabo-verdiano, de resto, surpreendeu precisamente por coincidir com a polémica revelação, na imprensa nacional, da adulteração da idade por parte do jogador, que chegou a Portugal em 2013 para fazer testes na Academia de Alcochete “através do João José, um empresário cabo-verdiano que tem conhecimentos cá”, como explicou em 2017 em entrevista ao “Maisfutebol”. Foi integrado nos juniores e chegou a fazer treinos com a equipa B, orientada por Abel, e até com a principal, sob o comando de Leonardo Jardim, mas não ficou nos Leões, acabando por rumar no início de 2014 ao Algarve para prestar testes no Quarteirense, então no denominado CNS (terceiro escalão).

Teoricamente, tinha na altura apenas 19 anos (apesar de já apresentar no currículo 3 temporadas nos seniores de Derby e Mindelense, em Cabo Verde), e deu nas vistas de tal forma no emblema de Quarteira – então ainda como médio-defensivo – que acabou por ser contratado pelo Farense, da II Liga. Em Faro, ainda conhecido como Carlos Rodrigues, fez uma época e meia de excelente nível, de tal modo que foi contratado pelo Benfica em Dezembro de 2015.

(Contratualmente ligado ao Basaksehir durante 4 épocas, entre 2019 e 2023, o central representou os turcos durante duas temporadas e meia e sagrou-se Campeão Nacional – 70 jogos, 1 golo e uma assistência.)

Seria, porém, imediatamente cedido ao Paços de Ferreira, onde deu os primeiros passos no escalão principal do futebol nacional, sendo novamente emprestado pelas Águias nas duas temporadas seguintes, a Chaves e Aves, depois de 4 jogos efectuados na equipa B dos encarnados logo na fase inicial de 2016/17. Apesar de se ter destacado claramente nas duas cedências – ao serviço dos flavienses chegou às meias-finais da Taça de Portugal, apontando na eliminatória anterior o único golo da vitória sobre o Sporting, e pelos avenses viria a conquistar a prova na temporada seguinte, vencendo precisamente os Leões na final –, nunca dispôs de uma oportunidade para se mostrar no Benfica, acabando por se desvincular das Águias no verão de 2018 para assinar em definitivo com o Aves.

No fim da época, rumaria aos turcos do Basaksehir, onde se sagrou campeão logo no primeiro ano, tendo regressado a Portugal e ao Chaves em 2022/23 após um curto período de cedência ao Rizespor. Na época seguinte, assinou pelo Moreirense, que representou durante uma temporada e meia, até que em Janeiro se mudou para Israel, pegando de estaca e fazendo 13 jogos até ao fim de Abril, entre os quais os quartos-de-final e as meias-finais da Taça (que o Hapoel Beer Sheva viria a vencer), até que desapareceu por completo das fichas de jogo, aparentemente sem motivo plausível.

(Ponck em duelo com André durante o Chaves 2-2 Sporting válido pela 17ª Jornada da I Liga em 16/17.)

Algumas semanas depois, foi noticiado em Cabo Verde que “Ponck” havia sido detido no seu país-natal por suspeita de falsificação e alteração de documentos. Em Setembro passado, o jornal “Público” revelou que Luís Filipe Vieira, aquando da contratação por parte do Benfica, já tinha sido avisado das irregularidades que envolviam a documentação do jogador cabo-verdiano e decidiu ignorar os alertas; agora, o AVS SAD procedeu à inscrição de Carlos “Ponck” com a sua “idade real”, garantindo “total transparência no processo”.

O caso de “Ponck”, apesar de insólito, não é único na História recente do futebol português. O mais mediático terá sido o de Cao, curiosamente também nascido em Cabo Verde, que se sagrou campeão mundial de sub-20 em 1991 quando representava o FC Porto, numa prova que disputou alegadamente com 19 anos. Em 2002, porém, rebentou o escândalo: o médio teria utilizado uma certidão de nascimento falsificada durante vários anos, tendo inclusivamente obtido a nacionalidade portuguesa apenas em 1993 – a sua idade real seria de mais 4 anos (nascido em 1968, ao invés de 1972), embora tenha surgido posteriormente um documento de uma Conservatória do Registo Civil de Cabo Verde onde era revelado que tinha nascido em 1970.

(Contratado pelo Benfica a meio de 15/16, o futebolista natural de Mindelo ficou ligado aos encarnados até ao Verão de 2018, mas o máximo que conseguiu fazer foram 4 jogos pela equipa B.)

Numa entrevista ao “Maisfutebol” realizada nesse ano de 2002, o representante de Cao, António Neves, assumiu mesmo que o jogador havia sido registado “2 ou 3 anos depois de ter nascido”. Cao acabaria por nunca conseguir jogar na equipa principal dos Dragões, fazendo carreira por Rio Ave, Tirsense, Leça (duas vezes), Salgueiros (duas vezes), Campomaiorense, Felgueiras e Rio Tinto.

Pelo contrário, Leandro Lima foi aposta regular de Jesualdo Ferreira na primeira metade de 2007/08, após ser contratado aos brasileiros do São Caetano alegadamente com apenas 19 anos. Em Janeiro, porém, surgiram as notícias de que a idade do médio brasileiro havia sido adulterada: Leandro Lima não nascera a 19 de Dezembro de 1987, como indicado pelos documentos da CBF que lhe permitiram disputar (ilegalmente) o Mundial de sub-20 em 2007, mas sim a 9 de Novembro de 1985, e nem sequer o nome correspondia à realidade (havia sido registado como Luiz Leandro Abreu de Lima, mas chamava-se de facto George Leandro Abreu de Lima).

(Ao serviço do Desportivo das Aves, o internacional cabo-verdiano fez 3 golos em 70 jogos e contribuiu de forma importante para a conquista da Taça de Portugal em 17/18.)

No caso, acabou por ser o próprio atleta a confessar a ilegalidade ao FC Porto, com o clube de imediato a comunicar a situação à Liga e a enviar o jogador de volta ao Brasil para resolver as questões legais adjacentes. Em Maio, Leandro Lima recebeu uma suspensão de 3 meses por parte da Comissão Disciplinar da Liga, tendo na época seguinte sido cedido ao Vitória de Setúbal – viria ainda a atuar pela União de Leiria em 2010/11, passando depois pelo futebol da Coreia do Sul e novamente do Brasil até se retirar em 2019.

Mais recentemente, outro jogador cabo-verdiano revelou irregularidades relacionadas com adulteração de idade aquando da chegada a Portugal. Através das redes sociais, Eynel Soares explicou que, aos 16 anos, e após aliciamento por parte de empresários, aceitou reduzir 2 anos na idade legal com a promessa de se abrirem as portas do futebol europeu; após passagem pelos italianos do Novara, chegou em 2018 ao Braga, supostamente com 18 anos, mas acabou por alertar o clube bracarense na segunda época de contrato, fazendo um interregno na carreira e voltando ao seu país.

(Carlos Ponck reforçou o Farense no Verão de 2014 e por lá ficou até Janeiro de 2016, altura em que foi transferido para o Benfica – disputou 65 jogos pelos algarvios.)

Em 2022, conseguiu assinar pelo Trencin, da Eslováquia, e desde 2023/24 joga no Cherkasy, da I Liga da Ucrânia. “Apesar de ser um caso comum em África e existirem vários jogadores enganados por empresários que entretanto já tiveram uma oportunidade nos seus países, por causa desse passado a selecção [de Cabo Verde] não arrisca em convocar jogadores que passaram por essas situações. Aceito a decisão deles e percebo o medo”, assumiu o extremo.

Nos escalões mais baixos, as dúvidas proliferam de forma ainda mais exacerbada, ainda que nem sempre seja um processo simples de resolver. O caso mais inusitado (e com contornos muito semelhantes aos de Carlos “Ponck”) será o de Igor, curiosamente outro jogador cabo-verdiano, que possui… dois perfis no site da FPF: um com o nome Igor Santos Lopes e a data de nascimento de 1 de Junho de 1993, no qual regista inscrições entre 2011/12 (juniores do Rio Ave) e 2016/17; no outro perfil, com o nome Igor Manuel Silva Barbosa e data de nascimento de 1 de Junho de 1988, tem o percurso efectuado entre 2017/18 e 2021/22, quando encerrou a carreira no Cerveira, na I Divisão Distrital de Viana do Castelo.

*Artigo redigido por Bruno Venâncio, jornalista com passagens pelos jornais “OJOGO”, “Sol” e “I”.

Miguel Cardoso: “Vir para a Turquia foi a melhor decisão da minha carreira”

(Miguel Cardoso cumpre a 5ª época consecutiva no Kayserispor, emblema onde tem feito boas épocas e do qual é capitão de equipa.)

Ainda à procura da primeira vitória na principal Liga Turca desta época, o Kayserispor soma 5 empates em 8 jornadas e uma das suas grandes figuras é o português Miguel Cardoso, que além de ser capitão, já apontou 2 golos que valeram precisamente 2 dos 5 pontos que o emblema de Kayseri tem até ao momento.
Natural de Lisboa, o extremo cumpre a quinta temporada consecutiva na Turquia, sempre ao serviço do mesmo clube, e ano após ano tem um rendimento importante para as contas finais da sua equipa, ele que no estrangeiro já passou pelo Deportivo, que o contratou quando estava nos Distritais da AF Lisboa, e também pelos russos do Dinamo de Moscovo e do Tambov.
Atualmente com 31 anos, Miguel Cardoso, que cumpriu grande parte da formação no Benfica e disputou a nossa I Liga por União da Madeira, Tondela e B SAD, assume nesta entrevista que se arrepende de ter saído de Espanha por ser o Campeonato que considera ideal tendo em conta as suas características, e confessa que se sente realizado por ter conseguido chegar a profissional depois de ter deixado os “encarnados” na transição de Juvenil para Júnior:

À Bola pelo Mundo/Conversas Redondas: Estás a iniciar a quinta temporada na Turquia e já igualaste a melhor marca da carreira nesta fase da época no que diz respeito a golos. Tens alguma meta definida?
Miguel Cardoso: A nível individual começou bem, a nível colectivo nem por isso, trocámos agora de treinador. Mas eu, como objectivos, quero fazer sempre melhor do que na época anterior, tanto a nível individual como colectivo, ajudar a equipa ao máximo, continuar a sentir-me importante, ter bastantes minutos, bastante influência.

Quais são os objectivos do clube para esta época?
Principalmente fazer um campeonato tranquilo, sem os sobressaltos da época passada, onde passámos grande parte da época na zona de descida. Acabou bem, e agora o grande objectivo passa por fazer um campeonato tranquilo. O clube teve alguns problemas por não poder contratar jogadores durante algumas épocas, este ano já o conseguiu e passa por integrá-los, dar-lhes algum tempo para que o clube tenha estabilidade, faça um campeonato bom e pouco a pouco ir subindo e crescendo como clube, porque tem todas as condições para isso. O que necessita neste momento é estabilidade. O objectivo passa pela manutenção, mas olhando sempre para fazer o melhor possível.

Como surgiu a possibilidade de ires para a Turquia?
Foi através do meu empresário. Tinha estado cedido pelo Dinamo Moscovo à B-SAD, só tinha mais um ano de contrato e o Dinamo não contava comigo para essa época e acabámos por arranjar esta opção da Turquia, do Kayserispor, que eu acho que foi bastante acertada, as últimas 4 temporadas dizem isso mesmo. Foi a melhor decisão que tomei na minha carreira.

(A meio de 13/14, o extremo trocou o Real SC, dos Distritais, pelo Deportivo, tendo feito época e meia de bom nível na equipa B dos galegos que lhe permitiu depois chegar à equipa principal e jogar na La Liga.)

Tens contrato por quanto tempo?
Tenho contrato por mais esta e a próxima temporada, estou bastante feliz e vamos ver o que o futuro reserva.

Como é viver aí? O clima, a comida, as pessoas, a comunicação…
É um país muito bom para se viver, neste momento estou sozinho mas a minha família já cá esteve e vem cá de vez em quando. Acaba por não ser muito diferente daquilo a que estamos habituados [em Portugal]. O clima é bom, apesar de eu estar numa cidade onde o clima é bastante rigoroso, inclusive no inverno neva bastante, mas é um país muito bom, dá-nos todas as condições. As pessoas recebem-nos muito bem, apesar de poucas pessoas falarem inglês, hoje em dia acaba por ser mais fácil através do tradutor e tudo isso. A comida é bastante bom, ainda que bastante temperada, e nós atletas temos de nos cuidar, não podemos ir muito por aí, porque se não fica complicado manter a linha (risos)!

Adaptaste-te rapidamente ou nem por isso?
Penso que a minha adaptação foi relativamente fácil, já tinha tido a experiência na Rússia, que foi bastante diferente daquilo a que nós estamos habituados em Portugal. Aqui acaba por ser um pouco mais parecido a nível de clima, de gastronomia, as pessoas gostam bastante de receber, assim como nós. Tinha cá o Manuel Fernandes na altura, o Carlos Mané chegou ao mesmo tempo que eu e foram tudo ferramentas que ajudaram. Viver aqui é bastante bom.

(A meio de 15/16, o futebolista natural de Lisboa foi cedido pelo Depor ao União da Madeira, fazendo dessa forma a sua estreia na nossa I Liga.)

E em termos de futebol? Surpreendeu-te de alguma forma, ou foi ao encontro do que esperavas?
O campeonato é bastante diferente do campeonato português, e também do russo. É bastante competitivo, em Portugal acho que não temos bem a noção da qualidade das equipas turcas, principalmente a nível individual. Todos os jogos são bastante competitivos, qualquer equipa pode ganhar em qualquer campo, nós já ganhámos em todos os campos. Os jogos são mais anárquicos a partir de uma certa altura, com bastantes transições, exige muita capacidade física. Acabam por ser mais abertos do que estamos habituados, principalmente em Portugal, onde os jogos são tacticamente melhor preparados. Aqui é um campeonato bastante especial nesse aspecto.

Tens algumas histórias curiosas que te tenham acontecido aí?
Fez-me alguma confusão quando chegámos as rezas, inclusive uma durante a noite, às 4 ou 5 da manhã. Para quem não está habituado, nessas primeiras noites acordou-se ali um bocadinho…

Antes tinhas passado pela Rússia. Quais as principais diferenças?
O campeonato russo é mais forte do ponto de vista físico, nos duelos, é muito duelo no campo inteiro, muita marcação individual. Exige muito fisicamente, um jogador que não esteja preparado para isso dificilmente tem sucesso na Rússia. Eu tive de me adaptar, lembro-me que nos primeiros tempos aquelas pequenas faltas, os pequenos contactos, aquelas faltas “ganhas” que conseguimos no campeonato português lá não existia. É um campeonato que nos faz evoluir muito do ponto de vista físico e que ajuda bastante para esta transição que eu fiz quando vim para a Turquia, porque já tinha essa preparação. Ainda que aqui não seja tão exigente do ponto de vista físico, nos duelos, exige bastante a nível físico, nas transições.

Fizeste a formação quase integralmente no Benfica, mas nos juniores sais para o Casa Pia. Porquê? Fica uma sensação amarga por não teres chegado à equipa principal?
Claro que fica essa sensação amarga de não ter chegado um pouco mais além, mas não foi essa a opção do clube. No Casa Pia fiz uma excelente época e pronto, não dá para todos, mas o importante é cada um fazer o seu caminho, sentir-se importante no seu clube e jogar, jogar, jogar, que é o mais importante, principalmente na formação, para que possamos evoluir e aparecer, seja em que clube for. Foi nisso que me foquei: se não tinha espaço no Benfica, ia ter de o arranjar noutro lado. Foi no Casa Pia, foi muito positivo para o meu desenvolvimento e estou muito feliz por ter conseguido chegar a profissional e a um bom patamar mesmo sem tendo jogado na equipa de juniores no Benfica ou na equipa B.

(Ao serviço do Tondela durante pouco mais de duas épocas, Miguel Cardoso fez 10 golos e 10 assistências pelos “beirões”.)

E como surgiu a possibilidade de ir para um histórico como o Depor quando estavas nos Distritais da AF Lisboa?
Foi através do meu empresário. Tínhamos tudo apalavrado com uma equipa no verão anterior, que não se concretizou, infelizmente, e tive de continuar no Real mais meia época, até que em Janeiro surgiu essa oportunidade. Era para a equipa B do Deportivo e não pensei duas vezes, foi um excelente passo para mim, para o meu desenvolvimento, fiz uma época e meia excelente, com grandes números, que me fazem depois subir para a equipa principal, onde me consegui estrear em Camp Nou com aquela noite memorável para mim: para além da estreia na I divisão, o estádio onde foi, contra quem foi, o resultado, o ter tido influência no resultado… Ainda hoje me lembro bastante, foi um jogo muito especial para mim.

Fazes mais 6 jogos além dessa estreia com o Barcelona e depois és emprestado ao União da Madeira, acabando posteriormente por te transferires de forma definitiva para o Tondela. Esperavas voltar ao Corunha?
Sou emprestado em Janeiro, depois de ter falado com o meu treinador e o diretor sobre aquilo que seria a melhor opção para eu continuar a jogar, visto que não teria espaço como titular no Depor. No União não correu como o planeado, descemos de divisão e não tive grande influência nos jogos que fiz. Esperava regressar à Corunha, até porque uma ou duas semanas antes de acabar o campeonato tinha tido uma conversa com o director-desportivo e tudo indicava que ia voltar, mas infelizmente no verão não tive mais contacto com eles, não me atenderam mais o telefone, e acabei por ir para o Tondela, que foi a melhor oportunidade que tive naquela altura da minha carreira. Fez com que me “relançasse”, apesar de ainda ser muito jovem, mas foi um passo muito importante para mim, um clube que me deu todas as condições para crescer, foi muito importante no meu crescimento, fiz duas boas épocas que me permitiu depois transferir para a Rússia.

E a experiência na Rússia? Esperavas mais no Dinamo? E depois o Tambov foi muito azar, com o surgimento do COVID…
O Dinamo é o clube que me deixou uma espinha encravada, por assim dizer. Penso que tinha todas as condições para ter mais sucesso na passagem pela Rússia, o Dinamo é um grande clube, que nos dá todas as condições, a todos os níveis, mas infelizmente não dependeu só de mim, tudo mudou: a direcção, o diretor desportivo, o treinador, e os estrangeiros na altura acabaram por sofrer um pouco com isso, acabámos por sair todos. Como tinha um contrato de longa duração optei por ir emprestado para o Tambov, porque estava a viver em Moscovo e não tinha de mudar nada, só ia fazer os últimos 10, 11 jogos da época, podia ser bom para jogar… e entretanto chega o COVID, fecha-se tudo, não há campeonato. Acabei por fazer só um jogo e esse empréstimo acabou por não ter efeito. Foram tempos difíceis, foi uma época muito difícil para mim a nível pessoal, porque acabei por ficar 5 meses sozinho, fechado em casa num apartamento, porque a minha família ia viajar para lá curiosamente na semana em que fechou tudo, e depois optei por vir emprestado para Portugal, porque queria estar perto da família. Foi uma excelente decisão, voltei a Lisboa, fiquei perto dos meus e fiz uma boa época na B SAD.

(Contratado pelo Dinamo de Moscovo no princípio da temporada 18/19, o avançado luso não teve uma passagem propriamente feliz pelo emblema russo.)

Como foi jogar lá, apesar das dificuldades que eram publicamente conhecidas? Afectava muito o vosso trabalho diário?
Consegui juntar a parte desportiva à parte pessoal e precisava disso para ter sucesso desportivo. Foi uma excelente época, tanto a nível pessoal como colectivo, sem pensar muito nas condições do clube, que não eram boas, sem dúvida: treinávamos no Jamor, em Tróia, em Odivelas… Mas passava tudo para segundo plano porque eu estava bastante feliz, e isso reflectiu-se em campo.

Onde gostaste mais de jogar até agora? Que tipo de futebol se adequou mais às tuas características?
O campeonato onde desfrutei mais e que se adequava mais às minhas características foi sem dúvida o espanhol. Jogadores muito bons tecnicamente, tacticamente inteligentes, exigia mais da parte mental do jogador. Foi aquele que mais me identifiquei, e que me arrependo bastante de ter saído. A Rússia deu-me uma grande evolução, principalmente no ponto de vista físico, e acho que isso me ajudou bastante no resto da minha carreira até ao momento. Foi bastante importante até para as minhas características.

Sempre jogaste a extremo? Nos últimos tempos tens sido utilizado nalgumas ocasiões como o elemento mais adiantado!
Na minha carreira sempre fui extremo, ainda que aqui na Turquia já tenha jogado em praticamente todas as posições, só não fui guarda-redes, central e médio defensivo! Considero que tenho essa polivalência, mas claro que me sinto mais confortável na minha posição de origem. Às vezes jogo como falso 9, na B-SAD também joguei muitas vezes assim. Também gosto de lá jogar, mas a minha zona de conforto é claramente a extremo. Mas também gosto de explorar outras posições e outras dinâmicas, dependendo também do adversário e do jogo em si.

Qual o aspecto em que consideras que evoluíste mais ao longo da carreira? E onde achas que ainda podes melhorar?
Podemos sempre evoluir, independentemente da fase da carreira. O mais importante é mantermo-nos sempre bem fisicamente, e eu foco-me muito nisso, porque as lesões estão sempre à porta, estamos sempre sujeitos e temos de reduzir esse risco ao máximo.

(Em 20/21, Miguel Cardoso esteve emprestado à B SAD pelo Dinamo de Moscovo, e fez 9 golos e 3 assistências em 34 jogos.)

Quem são os teus ídolos de infância? Em quem te revias na tua posição (ou revês, caso ainda esteja em actividade)?
É difícil dizer. Ao longo da minha formação fui vendo os extremos portugueses, como o Quaresma, o Nani, o Cristiano Ronaldo que depois deixou de ser extremo mas acaba por ser a grande referência. Em miúdo gostava muito do Ronaldo Fenómeno, são esses os ídolos, os que mais seguia atentamente e que marcaram a minha infância.

Que treinador (ou treinadores) mais te marcou?
Felizmente tive muitos que me marcaram desde miúdo. Quando ingressei no Benfica o Miguel Soares, depois tive o mister Casimiro no Casa Pia, no Real Massamá o mister João Silva, em Espanha o mister da equipa B Manuel Mosquera. Na parte profissional gostei muito de trabalhar com o Petit, com o Pepa, e no estrangeiro gostei muito de um treinador turco que era o Cagdas Atan, e um que esteve cá na segunda metade da época passada, o Sergej Jakirovic, que fez com que eu me destacasse muito em apenas 3 ou 4 meses. Podemos sempre aprender alguma coisa com todos os treinadores, porque cada um tem as suas ideias, e felizmente desse ponto de vista tenho vindo a crescer bastante.

O que ainda esperas atingir na carreira?
Há sempre coisas a atingir na carreira, mas eu foco-me muito no que é a minha parte física, tentar manter-me o melhor possível fisicamente, dentro do que são as minhas características, fazer esse trabalho específico e estar pronto para ter sempre um rendimento melhor do que aquilo que foi o anterior, melhorar os números e continuar a sentir-me importante, bem e feliz no futebol, que é o que eu gosto de fazer e espero continuar por bastante tempo.